Uma pesquisa DataFolha recente revelou um empate técnico na corrida presidencial, com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro registrando 46% e 43% das intenções de voto no segundo turno, respectivamente. Os dados apontaram uma queda de 12 pontos percentuais na diferença entre os dois em dois meses, período em que Lula recuou de 51% para 46% e Bolsonaro avançou de 36% para 43%.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, reagiu aos resultados afirmando que "a pesquisa demonstra a fotografia de hoje", mas ressalvou que "nada aponta para que esse cenário venha a se consolidar". Silva acrescentou que "o ambiente político acirra a polarização" e que "o governo do presidente Lula tem muito o que mostrar". Entre os caciques petistas, discute-se o temor de que Lula possa não disputar um quarto mandato. Nesse contexto, a alternativa considerada para o bolsonarismo, caso Lula desista da reeleição, seria a candidatura do ministro Camilo Santana, após Fernando Haddad ter sido lançado para governador de São Paulo em 9 de março.
O ex-deputado estadual Giovanni Sampaio (PSB), aliado de Camilo Santana, confirmou sua intenção de concorrer a um cargo eletivo após reunião com o ministro em 4 de março, em Petrolina, assumindo papel de principal articulador de Santana no Cariri. Em 9 de março, durante inauguração de uma empresa em Juazeiro, o governador Elmano de Freitas frisou a relevância eleitoral do Cariri, afirmando que "em qualquer eleição do Ceará, a vitória ou a derrota de alguém, de qualquer candidato, passa pelo Cariri". A janela partidária para definição de filiações de deputados segue até 3 de abril.
No cenário político cearense, o presidente estadual do PRD, Michel Lins, renunciou ao cargo para se filiar aos Republicanos em 10 de março. A vereadora Carla Ibiapina assumiu a presidência do PRD, que será comandado pelo deputado federal Júnior Mano e o ex-prefeito Acilon Gonçalves. Em Juazeiro do Norte, a vereadora Rita Monteiro (PSB) denunciou rotina de desrespeito de colegas vereadores contra parlamentares femininas, com suspeitas recaindo sobre Rafael Cearense (Podemos), e indicou levar o caso ao Ministério Público.
A obsessão do debate público com a aritmética eleitoral, como evidenciado pela minuciosa análise de intenções de voto e movimentações partidárias, embora relevante para a dinâmica da disputa pelo poder, frequentemente obscurece as profundas assimetrias estruturais que moldam a sociedade brasileira. A "fotografia de hoje", capturada pelas pesquisas, é menos um reflexo das necessidades e aspirações populares do que um instantâneo das estratégias de consolidação de poder da elite política. Esse foco na performance eleitoral e nas negociações de bastidores desvia a atenção da urgência de abordar a vulnerabilidade social e as desigualdades sistêmicas que persistem independentemente de quem ocupa o cargo.
A própria oscilação nas intenções de voto e a corrida para definir candidaturas alternativas, como a do ministro Camilo Santana, são sintomáticas de um sistema político em que a primazia recai sobre a manutenção de hegemonias partidárias e a perpetuação de um ciclo de poder, muitas vezes desconectado das demandas por políticas públicas inclusivas e redistributivas. Como argumenta Joseph Stiglitz, a excessiva concentração de poder político e econômico tende a gerar políticas que favorecem os grupos já privilegiados, em detrimento da democratização das oportunidades. A valorização eleitoral de regiões como o Cariri, fundamental para vitórias, corre o risco de ser uma instrumentalização do capital político local, em vez de um compromisso genuíno com o desenvolvimento equitativo e a redução das disparidades regionais.
Adicionalmente, a denúncia de desrespeito contra parlamentares femininas em Juazeiro do Norte transcende a esfera da má conduta individual para revelar uma manifestação explícita das assimetrias de poder de gênero ainda incrustadas nas instituições democráticas. Essa realidade, que Nancy Fraser categoriza como uma falha de reconhecimento, impede a plena participação e a voz das mulheres na política, minando a própria representatividade e a construção de um ambiente verdadeiramente plural. Não se trata apenas de garantir a presença numérica, mas de assegurar um ambiente de respeito e legitimidade que permita a todas as vozes contribuir para a agenda pública e os direitos fundamentais.
Um projeto político verdadeiramente progressista, portanto, deve ir além da mera contabilidade eleitoral e se dedicar à transformação das bases estruturais da desigualdade. Isso implica a implementação de políticas públicas que visem a redistribuição efetiva de renda e recursos, o fortalecimento da participação popular nas decisões e a construção de um ambiente político que valorize a dignidade e a equidade de todos os cidadãos. É fundamental que as discussões sobre o futuro do país girem em torno de como construir uma sociedade mais justa e inclusiva, onde o poder seja um instrumento de emancipação e não de reprodução de privilégios.
Além da Aritmética Eleitoral: O Verdadeiro Desafio Social
O intrincado balé das intenções de voto e as movimentações calculadas no tabuleiro político, reveladas pelas recentes pesquisas e articulações partidárias, dominam as manchetes e pautas de discussão. A corrida eleitoral, com suas flutuações e estratégias para a consolidação de poder, captura incessantemente o olhar público, fazendo crer que a essência da política reside exclusivamente nessa aritmética. Contudo, é preciso questionar se, ao fixar os olhos apenas no termômetro da disputa, não estamos perdendo de vista a febre que aflige o corpo social, obscurecendo as profundas assimetrias e desafios estruturais que definem a condição brasileira para além do ciclo eleitoral.
É inegável que o sistema democrático, com suas eleições e disputas partidárias, constitui um mecanismo essencial para a alternância de poder e a renovação dos quadros de liderança. No entanto, como bem observou Hannah Arendt, a verdadeira política transcende a mera administração do poder ou a busca por hegemonias; ela reside na esfera pública onde os cidadãos, através da palavra e da ação, constroem um mundo comum. Quando o foco se restringe à engenharia eleitoral, corremos o risco de esvaziar a política de seu sentido mais elevado, reduzindo-a a um jogo de soma zero onde os fins justificam os meios e a voz popular é instrumentalizada, em vez de genuinamente representada e empoderada.
A preocupação com a vulnerabilidade social e as desigualdades sistêmicas é, portanto, legítima e urgente. A observação de que a concentração de poder pode perpetuar privilégios e marginalizar grande parte da população aponta para uma falha não apenas no como a política é feita, mas no para que ela serve. A denúncia de desrespeito contra parlamentares femininas, por exemplo, não é um mero incidente de conduta, mas um sintoma de desequilíbrios mais profundos que impedem a plena participação de todos na construção da vida pública, minando a representatividade e a própria dignidade inerente a cada pessoa.
Filosofia e Doutrina Social: Pilares para a Boa Política
Neste cenário, a filosofia clássica e a Doutrina Social da Igreja oferecem um farol inestimável. Aristóteles, ao conceber a política como a arte de governar a polis em direção ao bem comum, nos lembra que o fim último da vida política não é o poder por si só, mas a realização da vida boa para todos os cidadãos. É a prudência – a virtude da razão prática – que deve guiar os estadistas e os cidadãos, discernindo não apenas o que é factível, mas o que é justo e conducente ao florescimento humano. O bem comum, conforme ensina São Tomás de Aquino, é a soma das condições sociais que permitem aos indivíduos e às famílias alcançar a sua plena realização, e não pode ser confundido com a soma de interesses particulares ou partidários.
Reorientando a Política: Dignidade Humana e Bem Comum na Prática
Para que a política transcenda a mera disputa pelo poder, ela precisa ser reorientada pela lei natural e pelo princípio da dignidade da pessoa humana. Isso exige que as políticas públicas sejam elaboradas não apenas para garantir a vitória nas urnas, mas para corrigir as assimetrias estruturais, promover a solidariedade e fortalecer a subsidiariedade. A valorização de regiões como o Cariri, ou de qualquer outra localidade, deve refletir um compromisso genuíno com o desenvolvimento equitativo, que empodere as comunidades locais e suas singularidades, em vez de instrumentalizá-las para fins eleitorais. A inclusão plena das mulheres na política, com o devido respeito e reconhecimento, é imperativo de justiça e sabedoria, pois suas vozes e experiências são indispensáveis à construção de um governo verdadeiramente representativo e eficaz.
O Resgate do Propósito: Superando a Polarização e Construindo o Futuro
Assim, a superação da dicotomia entre a política eleitoral e as questões sociais de fundo não se dá pela negação de uma em favor da outra, mas pela sua elevação a um plano superior. É preciso reconhecer que a disputa democrática, embora imperfeita, é um caminho para a governança, mas ela só ganha verdadeiro sentido quando seus atores são movidos por uma visão ética robusta, focada na dignidade de cada indivíduo e na promoção do bem comum. A verdadeira vitória política não se mede apenas em percentuais de voto, mas na capacidade de construir uma sociedade mais justa, solidária e fraterna, onde cada pessoa possa desenvolver seu potencial, livre da chaga da desigualdade e da exclusão.
Nesse sentido, o desafio atual do Brasil é o de resgatar o propósito teleológico da política. Não se trata de desconsiderar a "fotografia de hoje", mas de usá-la como um ponto de partida para um projeto de longo prazo, que transcenda a superficialidade das campanhas e se ancore na verdade da natureza humana e nos princípios de justiça. Somente assim a ação política poderá, de fato, servir ao povo, e não apenas a si mesma, elevando o debate público para além da polarização estéril e em direção a um futuro de genuína prosperidade moral e material para todos.
Fonte original: Jornal do Cariri
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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