Atualizando...

Política na Bahia: Coerência, Amplitude e a Crise da Veracidade

A formação da chapa de oposição na Bahia, com apoio de ex-petistas em evento cultural, expõe a crise da coerência. Análise do pragmatismo eleitoral e seus riscos à veracidade.

🟢 Análise

A política, como a arquitetura de uma cidade, exige alicerces sólidos e uma planta coesa para não ruir sob o peso da própria construção. O que se viu no interior da Bahia, com a recente Pascoareta de Pé de Serra e o lançamento da chapa de oposição, sugere mais um andaime improvisado que uma edificação pensada para durar. A presença de um pré-candidato ao governo, ACM Neto, ao lado de nomes como Angelo Coronel e Zeide da Farmácia, buscando legitimar-se em um evento de raiz cultural profunda, é um fato, mas não um atestado de solidez. O anúncio de apoio de um ex-vice-prefeito petista, Antonio de Pedro, a uma chapa de União Brasil, Republicanos e PL, por sua vez, ergue uma bandeira da “amplitude” que, para o olhar atento da doutrina, revela uma flagrante carência de veracidade.

A ânsia por aglutinar forças é compreensível na dinâmica eleitoral, mas quando essa busca descamba para uma colcha de retalhos sem fio condutor, levanta-se a questão sobre a substância do projeto. Que pilares programáticos concretos podem unificar espectros ideológicos tão díspares? A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que as associações, incluindo os partidos políticos, devem possuir um fim claro e uma identidade que inspire confiança e coerência. Uma frente que se apresenta como larga, mas cujo lastro é tão rarefeito, ameaça esfarelar-se sob o peso da própria amplitude. Tal paradoxo, à moda de Chesterton, expõe a contradição moderna de uma política que valoriza a forma – a união pela união – em detrimento do conteúdo: um programa de governo coeso e uma visão de estado claramente definida.

A instrumentalização de manifestações culturais tradicionais, como a Pascoareta – iniciada em 1939, com seu entrelaçamento de elementos religiosos e populares –, para fins puramente eleitorais, é outro ponto de preocupação legítima. Pio XII advertia sobre a distinção entre “povo” e “massa”; enquanto o povo preserva sua identidade e cultura orgânica, a massa é amorfa e facilmente manipulável para fins externos. A presença política, neste contexto, deveria ser de reverência e participação genuína, e não de apropriação para um palanque que desvirtua a essência comunitária do rito. A justiça demanda respeito ao patrimônio imaterial de um povo, que não pode ser tratado como mero cenário para ambições individuais.

A adesão de figuras como Antonio de Pedro, com seu histórico petista, a uma chapa de centro-direita, é o epítome de um pragmatismo que beira o oportunismo. Não se trata de negar a liberdade de trânsito político, mas de questionar o que resta da veracidade e do compromisso ideológico quando a bússola parece girar apenas na direção do poder. Se os partidos são, em essência, corpos intermediários que deveriam traduzir visões de mundo em projetos para a pólis, essa mutabilidade sem critério debilita a própria noção de representação e confunde o eleitorado, que tem o direito de saber quais são os fundamentos de quem busca governar.

A pergunta incômoda permanece: a que custo ideológico e programático se dá a busca por uma base eleitoral tão ampla, a ponto de unir ex-adversários históricos? A crítica à gestão atual é um ponto de partida, mas insuficiente como projeto de longo prazo para um estado como a Bahia, com suas complexas demandas em educação, saúde e segurança. A verdadeira política, aquela que aspira à ordem justa e ao destino comum de um povo, não pode ser uma mera frente de ocasião, mas um compromisso sério e programático.

A edificação de uma vida política robusta não se faz com a mera soma de insatisfações e arranjos pontuais. Exige alicerces de veracidade, cimentos de justiça e um projeto claro que transcenda o imediatismo eleitoral. Do contrário, teremos apenas um castelo de areia, por mais amplo que se pretenda ser, à mercê da primeira maré política.

Fonte original: Correio

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados