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Economia e Política no Brasil: Justiça Social Contra Slogans

A polarização política no Brasil reduz o debate econômico a slogans. Este artigo analisa o impacto real de privatizações e cortes sociais, e defende que políticas públicas devem ser julgadas pela justiça social.

🟢 Análise

O panorama político e econômico brasileiro, tantas vezes, se assemelha a um ringue onde os contendores, em vez de debater princípios, acusam-se mutuamente de intenções malignas. De um lado, ressoa a denúncia de um “plano bolsonarista de destruição”, munido de privatizações descabidas e congelamento salarial; de outro, emerge a contestação de que tal narrativa simplifica em excesso a complexidade da gestão pública e dos diferentes matizes da política econômica. Contudo, em meio ao ruído das paixões, a verdadeira medida de um governo, e de uma oposição, reside não nas promessas ou nas caricaturas, mas na sua aderência à justiça e na consequência real de suas ações sobre a vida comum.

É fato que o período recente testemunhou iniciativas de privatização de ativos estratégicos, como refinarias, gasodutos e a Eletrobrás, sob a égide de uma política econômica que visava a liberalização. Também é inegável o congelamento do salário mínimo por quatro anos e os cortes em programas sociais essenciais, como o Farmácia Popular e a merenda escolar, medidas que, independentemente de sua justificativa técnica, tiveram impacto direto na capacidade de vida dos mais vulneráveis. O governo subsequente, por sua vez, empreendeu a reconstrução de programas sociais, o descongelamento do salário mínimo e o relançamento de investimentos em áreas como ciência e tecnologia, em um esforço declarado de reindustrialização do país.

Não se pode, todavia, confundir uma agenda econômica liberal – que, como qualquer abordagem, possui seus riscos e defensores, sendo passível de crítica por seus resultados – com um “plano de destruição” intencional, a menos que haja evidências claras de uma finalidade perversa. A verdadeira veracidade exige que se avalie as políticas por seus efeitos concretos e por sua consonância com a justiça social, tal como ensinado por Pio XI em Quadragesimo Anno. A alienação de bens públicos, por exemplo, deve sempre ser julgada pela sua capacidade de servir ao bem-estar do povo, e não apenas pelo balanço de uma conta ou pela mera eficiência de mercado. A propriedade, ensina Leão XIII, possui uma função social que transcende o direito individual, implicando deveres para com a coletividade.

A retórica inflamada, que busca desqualificar o adversário imputando-lhe as piores intenções – seja a “submissão aos EUA” ou a “ligação às milícias” –, pode mobilizar bases, mas corrói os alicerces do debate político maduro. O clamor por uma “nova reforma da Previdência” ou por uma revisão das leis trabalhistas, embora possa ser proposto por diferentes razões, precisa ser examinado sob a lupa da subsidiariedade e da solidariedade. Será que tais reformas fortalecem os corpos intermediários da sociedade, ou os fragilizam ainda mais? Será que protegem os mais fracos, ou os expõem a um risco ainda maior? A Doutrina Social da Igreja adverte contra a estatolatria, mas também contra o culto cego ao mercado, lembrando que a economia deve servir ao homem, e não o homem à economia.

Em suma, a polarização que reduz a complexidade da política a um embate entre o bem e o mal, entre a “destruição” e a “reconstrução” como rótulos absolutos, é um atalho perigoso. Ignora as nuances, as inevitáveis restrições e as intenções diversas que permeiam qualquer governo. O que se impõe, acima das paixões e dos slogans, é a avaliação desapaixonada das consequências de cada escolha, dos impactos reais sobre os trabalhadores, os aposentados e o povo brasileiro. A elevação das tarifas de energia, o poder de compra corroído, a precariedade dos serviços públicos – estes são sintomas de desajustes que clamam por soluções ancoradas na justiça, e não por novas rodadas de guerra cultural.

É preciso, com magnanimidade, superar a tentação de enxergar conspirações onde há apenas diferenças de visão econômica ou erros de cálculo, sem, contudo, hesitar em apontar as falhas éticas ou os prejuízos reais. Chesterton, em sua defesa da sanidade contra a loucura lógica das ideologias, nos lembraria que o mundo real raramente cabe nas caixas maniqueístas que os polemistas de ocasião tentam construir. A política, para ser virtuosa, deve ter como meta a edificação de uma ordem justa, que proteja os direitos e promova a dignidade de cada pessoa.

A verdadeira vocação do Estado e da sociedade não é a de vender tudo ou a de tudo concentrar, mas a de cultivar as condições para que cada família, cada comunidade, cada cidadão possa prosperar em liberdade ordenada. Que o juízo final de cada política pública seja escrito não nas manchetes partidárias, mas na dignidade assegurada ao mais humilde dos brasileiros.

Fonte original: Hora do Povo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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