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Rui Costa Pimenta: O Risco do Reducionismo na Análise Política

Rui Costa Pimenta critica a política, mas sua análise revela um reducionismo ideológico. Contra essa visão, o texto defende a complexidade da justiça social e da ordem pública, essenciais para uma sociedade sem simplificações.

🟢 Análise

A política, em sua essência, não é apenas um jogo de poder, mas a arte da boa ordem, da construção do que é duradouro para a vida em comum. No entanto, há quem, ao observar as ruínas e as imperfeições, insista em uma narrativa que desmantela mais do que edifica, revelando uma realidade distorcida pela lente opaca da própria ideologia. As análises de Rui Costa Pimenta, no programa da Causa Operária, são um testemunho vibrante dessa postura: uma verve crítica que, ao tentar expor o descalabro do poder, acaba por desfigurar o próprio tecido da complexidade humana e social.

Pimenta não se furta a apontar o dedo: a reorganização ministerial de Lula seria puro oportunismo eleitoral, o escândalo do Banco Master, com seu rombo bilionário, seria mais uma prova da justiça seletiva e politicamente motivada que poupa o Centrão. Há, de fato, um legítimo desconforto público com a promiscuidade entre interesses políticos e financeiros. A opacidade em grandes transações e a seletividade das investigações são chagas que corroem a confiança popular. Mas a simples redução de toda ação governamental a uma manobra cínica é um atalho intelectual. A Doutrina Social da Igreja, inspirada em Pio XI, nos ensina que a edificação de uma justiça social robusta não se dá pela centralização total do poder ou pela substituição de uma elite por outra, mas pelo fortalecimento de corpos intermediários e pela prática da subsidiariedade. A estrutura da governança subsidiária não falha por si, mas pela desídia na honestidade e integridade de seus membros.

A crítica às leis que buscam regular o “ódio” ou tipificar o “antisemitismo” – como a proposta de Tabata Amaral ou a “lei da misoginia” – encontra eco em uma preocupação real. Leis vagas, que penalizam o que se “sente” ou “fala” de modo genérico, são, sim, um terreno fértil para a arbitrariedade e a censura. Pimenta tem razão ao alertar para o perigo de que tais instrumentos, hoje usados contra um Bolsonaro forçado a assistir à Globo, amanhã se voltem contra qualquer voz dissidente. A liberdade de expressão é um pilar da dignidade da pessoa humana, mas não um direito absoluto que legitima a mentira ou a incitação à violência. Pio XII já nos alertava para a necessidade de uma ordem moral pública que zele pela verdade e pela caridade, sem que isso se confunda com a censura estatal de toda e qualquer divergência. A defesa da verdade não pode ser pretexto para a perseguição, nem a liberdade para a calúnia.

No tabuleiro internacional, a voz do PCO se ergue contra o “imperialismo” e o “sionismo”, criticando a lei israelense que amplia a pena de morte para palestinos, classificando-a como “terrorismo”. A luta de pequenas nações e povos por sua soberania e autodeterminação diante de potências hegemônicas é uma questão de justiça social que a Doutrina Social da Igreja sempre defendeu, clamando pela paz e pela rejeição da guerra como solução. A “política de golpe de Estado” contra Viktor Orbán ou o “fracasso” da política de Trump com o Irã são narrados como evidências de um “imperialismo” onipresente. É preciso ter a fortaleza de discernir os interesses legítimos de cada povo sem cair na narrativa de uma conspiração monolítica que anula a responsabilidade moral dos atores e as complexidades de cada contexto. O Eixo da Resistência, ainda que visto como “intacto” por Pimenta, opera em um cenário de sofrimento humano que não pode ser varrido para debaixo do tapete da retórica.

Pimenta, ao mesmo tempo que denuncia o golpe de 1964 e seus atores encobertos, eleva os “militantes da luta armada” a “heróis”. Aqui reside uma perigosa ambiguidade. A memória histórica exige honestidade e a condenação inequívoca de toda usurpação da autoridade legítima. Mas a defesa da luta armada, “ainda que sem muita perspectiva de êxito”, como um modelo de heroísmo, confunde os meios com os fins e legitima a violência revolucionária que São Tomás de Aquino, com sua doutrina da guerra justa, jamais endossaria para a desestabilização da ordem pública. A verdadeira fortaleza não reside em pegar em armas contra um regime opressor sem um juízo moral rigoroso sobre as condições de sua justiça e a proporcionalidade de seus meios, mas em edificar uma sociedade onde a injustiça não tenha terreno.

A postura de Rui Costa Pimenta, embora carregada de uma energia polemista e de críticas pertinentes, desvela um perigo profundo: ao reduzir a política a um mero jogo de interesses mesquinhos e conspiratórios, esvazia-se o próprio esforço humano por construir algo duradouro e bom. Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias, diria que o problema reside em reduzir o homem a uma função ou a um mero produto de estruturas, negando sua liberdade e responsabilidade moral. Diante disso, impõe-se a fortaleza de defender a verdade concreta dos fatos e a honestidade intelectual de reconhecer a complexidade do real, sem cair no relativismo ideológico. A visão social-cristã, tão bem articulada por Pio XI, recusando a estatolatria e o anarquismo revolucionário, propõe a contínua edificação da cidade humana, onde a ordem justa floresce a partir de bases morais sólidas, com a colaboração ativa de todos os seus corpos intermediários.

A construção de uma sociedade justa e fraterna é obra de paciência e de pedras bem assentadas, não de explosões retóricas que deixam apenas ruínas de confiança.

Fonte original: Diário Causa Operária

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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