Há custos que se calculam na bomba de gasolina, e outros que se pesam na balança da razão; estes últimos, invariavelmente, provam ser os mais pesados. Quando um presidente, em sua sanha de redefinir as fronteiras da influência global, decide que o Oriente Médio é um xadrez particular a ser movido com impaciência e sem a devida prudência, o eco dessa estratégia imprudente raramente se restringe aos teatros de guerra. Invariavelmente, ele retorna para casa, transformado em inflação, instabilidade e, para o político calculista, em perda de cadeiras nas urnas. O preço do barril de petróleo, saltando para cifras que não se viam desde 2022 após a ofensiva norte-americana contra o Irã, não é meramente um índice econômico; é o termômetro de uma decisão política que arrisca a estabilidade global em nome de uma projeção de força mal dimensionada.
A subida vertiginosa do petróleo, que empurra a gasolina em mais de 20% e aperta o orçamento de famílias americanas, é o sintoma mais imediato de uma febre geopolítica. A cada centavo que o galão aumenta, não é apenas o posto que encarece, mas a vida de milhões, especialmente os eleitores de média e baixa renda nos estados-pêndulo, aqueles que decidem eleições. O Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do consumo mundial de petróleo, bloqueado pelo Irã em retaliação, transforma a estratégia militar em um imposto sobre a subsistência. E, como bem observou São Tomás de Aquino, a prudência é a virtude que não apenas discerne o verdadeiro bem, mas também escolhe os meios adequados para alcançá-lo. Aqui, os fatos revelam uma notável ausência dessa virtude cardeal: a admissão de que o governo americano “calculou mal” a intervenção, esperando uma “guerra rápida” com a queda de um regime complexo e resiliente como o iraniano, é a confissão de uma imprudência colossal.
O polemista moderno, tal qual um Chesterton desvelando as contradições da modernidade, não hesitaria em apontar o paradoxo: um líder que se elege prometendo evitar conflitos externos, mas que depois os amplia com uma agressividade unilateral, acaba por colher as amargas consequências em seu próprio quintal político. O ataque anterior de Trump ao Irã, em 2025, foi “bem visto pelo eleitorado” — talvez porque o custo ainda não havia sido plenamente computado pelo cidadão comum, ou porque a narrativa de “sucesso” se manteve incólume. Mas a repetição de uma fórmula, desprovida de inteligência estratégica e sem considerar os efeitos em cadeia, é mais teimosia que sabedoria. A Doutrina Social da Igreja, ao sublinhar o bem comum, lembra-nos que a paz não é a ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem, e essa ordem é minada por ações que geram instabilidade econômica e insegurança material para o próprio povo.
Alguns argumentarão que o eleitorado americano não se curva apenas ao preço da gasolina, mas também valoriza a “segurança nacional” e a imagem de um líder forte. Há uma ponta de verdade na capacidade de rearticulação política, na habilidade de desviar a culpa ou de moldar a percepção pública. Trump, de fato, já demonstrou uma resiliência notável a escândalos e desafios. Contudo, essa capacidade não legitima a ação imprudente. A verdade é que uma política externa que busca desestabilizar regimes sem um plano robusto, sem o cálculo da proporcionalidade entre os meios e os fins — e sem a perspectiva de sucesso, como atesta a “surpresa” com a resistência iraniana — não é fortaleza, mas temeridade. É a idolatria do Estado, que se arroga o direito de impor sua vontade sem prestar contas à reta razão ou às leis da boa governança.
As tentativas paliativas de conter a hemorragia econômica — afrouxar sanções a petróleo russo, buscar barris da Venezuela ou liberar reservas estratégicas da AIE — são apenas curativos aplicados a uma ferida auto-infligida. Não abordam a raiz do problema: a ausência de uma estratégia externa que combine força com sagacidade, e que coloque a prudência e o bem comum, tanto doméstico quanto internacional, acima da tentação de um golpe rápido e cinematográfico. O preço do petróleo, nesse contexto, não é apenas um fator eleitoral; é um juízo sobre a inadequação dos meios escolhidos para fins obscuros ou mal concebidos.
Em temas de fé e moral, a Igreja não transige com a ambiguidade. Em temas prudenciais, como este conflito, ela nos convoca a distinguir os princípios permanentes das aplicações contingentes, buscando sempre a solução mais conforme ao bem comum e à virtude da prudência. A “guerra rápida” que se transformou em atoleiro econômico, com o Estreito de Ormuz bloqueado e a inflação corroendo a renda familiar, é o espelho do fracasso de uma política que careceu de virtude essencial.
No fim das contas, a fatura eleitoral que se avizinha para Donald Trump em novembro será apenas o eco material de um julgamento mais profundo: o de que não se pode governar a geopolítica global com a mesma impetuosidade com que se move um peão no tabuleiro, pois a realidade tem o hábito incômodo de apresentar a conta pelos desvarios da imprudência.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.