A República do Peru, há uma década, tem sido um navio à deriva em mares tempestuosos, com nove presidentes em dez anos e uma sequência de crises que exaurem a paciência e a confiança de seu povo. As próximas eleições presidenciais e legislativas, com 35 candidatos ao cargo máximo e quase 30% dos eleitores ainda indecisos, não prometem um porto seguro imediato, mas antes um caleidoscópio de fragmentação onde cada giro traz uma nova e fugaz imagem de instabilidade. A busca desesperada por “ordem”, como propõe Keiko Fujimori com seu estado de emergência de 60 dias, ou por “união” contra os “que não amam o Peru”, na retórica de um Carlos Alvarez, revela a profundidade da ferida social. Já as promessas de “eliminar” criminosos, como prega Aliaga, ou a busca por uma nova constituição impulsionada por um ex-presidente condenado por autogolpe, como Palomino, apontam para atalhos perigosos que subvertem a própria ideia de uma ordem justa.
Nesse cenário de desfiladeiros políticos, a preocupação mais legítima não reside apenas na alta rotatividade de líderes, mas na crescente erosão da estrutura institucional e no apelo sedutor de soluções simplistas, que prometem resolver tudo ao custo da liberdade e da justiça. O histórico da supressão do bicameralismo por Alberto Fujimori e sua subsequente restauração em 2024, permitindo que os peruanos elejam seus senadores pela primeira vez desde 1992, é um indício de que há, no corpo político, uma tentativa de autocorrecção. Esse esforço em fortalecer os freios e contrapesos do poder é um passo necessário para mitigar a instabilidade crônica, um reconhecimento de que a arquitetura institucional importa. Contudo, tal reforma, por si só, não basta para sanar as raízes de uma desconfiança que brota da desilusão acumulada por gerações.
A Doutrina Social da Igreja, inspirada em Pio XII, nos adverte sobre a distinção crucial entre “povo” e “massa”. Um povo é uma comunidade orgânica, consciente de seus direitos e deveres, capaz de se autodeterminar e de participar da vida pública através de corpos intermediários. Uma massa, ao contrário, é um aglomerado informe, facilmente manipulável pela retórica populista e pelos apelos a salvadores. No Peru, a proliferação de candidaturas e a alta porcentagem de indecisos sinalizam tanto uma crise de representatividade legítima quanto um risco de que a massa, cansada e frustrada, se entregue a qualquer voz que prometa restaurar a ordem, mesmo que essa ordem venha acompanhada de traços autoritários. A justiça social e a subsidiariedade, eixos caros a Pio XI, exigem que o Estado e os corpos políticos operem para fortalecer as comunidades locais e as iniciativas da sociedade civil, e não para centralizar o poder em um executivo hipertrofiado ou em um legislativo acéfalo.
As propostas que flertam com o autoritarismo, seja por meio de “estados de emergência” indiscriminados, seja pela “eliminação” sumária de inimigos, revelam uma compreensão distorcida da justiça. A justiça não é vingança nem conveniência política; ela é a atribuição a cada um do que lhe é devido, sob o primado da lei. A veracidade, outra virtude cardeal, impõe que se discirna entre promessas vazias e planos concretos, entre a retórica que incendeia paixões e a argumentação que busca o bem comum. O endosso de um ex-presidente condenado, por exemplo, por um candidato que propõe uma nova constituição, é um desafio direto à memória institucional e à estabilidade da lei, revelando a instrumentalização da desilusão popular em detrimento da ordem moral pública. A busca por uma nova constituição, em si, não é um mal, mas ela deve ser fruto de um consenso maduro do povo, não de uma imposição apressada em resposta a um governo anterior falho.
A reconstrução do Peru, portanto, não passará pela mera reedição de lideranças carismáticas ou pela magia de uma reforma legislativa isolada. Ela exigirá a edificação de uma cultura cívica enraizada na justiça e na veracidade, onde a autoridade legítima seja respeitada e o Estado de Direito, inabalável. Isso implica um compromisso com a transparência, com a accountability e com a promoção de corpos intermediários que possam mediar as tensões e fortalecer a participação popular genuína, longe do apelo da massa e da estatolatria. A questão para os eleitores peruanos não é apenas quem sentará na cadeira presidencial, mas qual o projeto de nação que será edificado: um que reforce os laços da comunidade ou um que a lance novamente na espiral da incerteza.
Somente sobre a rocha da justiça e da veracidade, edificada com paciência e não com a pressa de quem busca o poder a qualquer custo, poderá o Peru encontrar o porto seguro de sua vocação à paz e à liberdade.
Fonte original: Exame
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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