A cautela diplomática, muitas vezes uma virtude em assuntos de Estado, pode tornar-se uma névoa densa quando o que está em jogo é a clara distinção entre o bem e o mal, entre a ordem social e o terror. O Brasil, em sua busca por “sensibilidade diplomática” para pavimentar um encontro presidencial, titubeia diante da possibilidade de que os Estados Unidos classifiquem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas. A justificativa, escorregadia como sabão, é que essas facções seriam meras “organizações criminosas” sem “ideologia”, e que o país já combate seus males internos com vigor. Mas a quem serve tal distinção, senão àqueles que dela se aproveitam para subverter a ordem sob a fina camada de um eufemismo?
É compreensível que um governo defenda a sua soberania e rejeite qualquer intromissão indesejada. O Itamaraty, agindo com o zelo que lhe é peculiar, busca municionar Washington com provas de que o Brasil não cruzou os braços: há PEC da Segurança, Projeto de Lei Antifacção, operações da Polícia Federal. Tudo isso é, em tese, louvável. Mas a prudência, virtude cardeal, ensina que a defesa de um princípio — como a soberania — não pode desvirtuar-se em pretexto para a inação ou para uma cegueira conveniente diante de um mal que, para a Doutrina Social da Igreja, clama por justiça e reta razão.
O cerne da questão reside na pretensão de que PCC e CV não são terroristas porque “não têm uma ideologia por trás”. Esta é uma falácia digna de escrutínio chestertoniano. Acaso a ausência de um manifesto político ou religioso classicamente definido desqualifica a natureza terrorífica de suas ações? São Tomás de Aquino nos ensina que o caráter de um ato é determinado não apenas pela intenção do agente, mas pelo objeto e pelas circunstâncias da ação. A violência extrema, a intimidação sistemática, o controle territorial pela força, a desestabilização das instituições estatais e o terror imposto a milhões de cidadãos para fins de poder e lucro, não apenas caracterizam a natureza funcional do terrorismo, mas a personificam em sua crueza mais bárbara. A desordem moral gerada por essas facções não é menos grave por não ser embalada em um panfleto ideológico; é, pelo contrário, ainda mais insidiosa por permear o tecido social com a indiferença calculista do mal puro.
O dever primário de um Estado, à luz da lei natural e do bem comum, é proteger a vida e a dignidade de seus cidadãos. Se a classificação externa como “terrorista” pode, porventura, abrir portas a ferramentas adicionais de combate — como sanções financeiras internacionais ou cooperação mais robusta em inteligência —, por que a recusa a priori? A soberania, para ser robusta, não pode ser uma muralha que isola o Estado das ferramentas de que necessita para se defender. Pelo contrário, ela se manifesta com maior vigor quando, reconhecendo a complexidade do crime transnacional, se abre à solidariedade e à subsidiariedade, aceitando auxílio externo que fortaleça a autoridade legítima interna sem a usurpar.
A Doutrina Social da Igreja sempre advogou a cooperação entre as nações como um imperativo para o bem comum global. O combate ao crime organizado, que transcende fronteiras e aterroriza populações, exige uma resposta coordenada, que não se esgote em purismos semânticos. A insistência em uma definição estreita de terrorismo pode, paradoxalmente, enfraquecer a postura brasileira no cenário internacional e dificultar a mobilização de recursos contra um inimigo que, de fato, aterroriza. O medo de uma “intervenção estrangeira” deve ser temperado pela virtude da prudência, que discerne a diferença abissal entre tutela e uma colaboração que serve aos interesses legítimos da nação.
A retórica que busca atribuir a iniciativa externa a “narrativas bolsonaristas” ou a “interesses ocultos” é um desvio que não faz jus à seriedade da ameaça. O inimigo não é a percepção externa, mas a realidade interna das facções que matam, extorquem e corrompem. A verdade exige que chamemos o mal pelo nome que lhe convém, e a caridade na verdade exige que utilizemos todos os meios lícitos para combatê-lo. É uma desordem moral que já se instalou, e o primeiro passo para a cura é reconhecer a doença sem eufemismos.
A prioridade de um encontro presidencial, por mais estratégico que seja, não pode jamais eclipsar o dever moral e político de um governo em nome de seus cidadãos. A “sensibilidade diplomática” é um instrumento, não um fim em si. O fim último é a proteção dos inocentes, a restauração da ordem e a promoção do bem comum. O Brasil, um país com instituições fortes e um povo resiliente, não precisa se esconder atrás de quimeras conceituais para combater o terror que lhe assola. A verdadeira soberania não reside em negar rótulos convenientes ao mal, mas em se equipar com todas as ferramentas necessárias para extirpá-lo, de dentro para fora, e com a cooperação de fora para dentro, quando necessário.
Afinal, a verdadeira independência de uma nação se manifesta não na recusa abstrata de uma classificação, mas na capacidade concreta de libertar seu povo do medo.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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