Ainda que a voz do desespero clame por paz, não qualquer paz serve. A história ensina, com o rigor da experiência e o peso do sangue, que um cessar-fogo imposto sobre a injustiça e a humilhação é mero armistício, prenúncio de novas hostilidades. É como edificar um castelo sobre a areia movediça da impunidade, esperando que a estrutura resista à próxima maré.
A guerra no Oriente Médio, acesa por um ataque letal que vitimou o líder supremo iraniano e que se desdobra em mais de quinze mil bombas despejadas sobre o Irã, é um cenário de ruína e alarme. Esforços diplomáticos, como o plano de quinze pontos proposto pelos Estados Unidos e mediado por nações como o Paquistão e a China, buscam, compreensivelmente, apagar o incêndio que ameaça a ordem global. A pressa por um acordo, a urgência de estancar o sofrimento humano e mitigar o choque econômico global, são legítimas e imperiosas. O clamor do Secretário-geral da ONU, António Guterres, para que se pare o combate e se evite uma guerra de proporções ainda maiores, ecoa a súplica de milhões.
Contudo, a pressa não pode atropelar o direito. É forçoso indagar se o fim dos combates se dará em termos que, em vez de consolidarem uma paz justa, apenas recompensarão a agressão inicial, legitimando assimetrias de poder e ambições territoriais unilaterais. A sugestão de um ministro israelense de que o rio Litani se torne a nova fronteira, implicando a anexação de parte do Líbano, não é retórica inócua; é uma proposta de violação da soberania que contradiz qualquer pretensão de ordem moral pública. A recusa iraniana em negociar sob fogo, exigindo garantias concretas contra futuras agressões e reparação pelos danos de guerra, aponta para feridas abertas que não se fecham com a mera pausa das hostilidades. Uma paz que se constrói ignorando o devido processo e as demandas por justiça não é um pacto, mas uma imposição.
À luz da Doutrina Social da Igreja, o verdadeiro alicerce da paz não se assenta sobre a lógica fria da força, mas sobre a justiça. Como ensinou Pio XII, a paz duradoura é obra da justiça e não pode ser reduzida a uma mera ausência de guerra ou a um equilíbrio precário de potências. O respeito à soberania das nações, a integridade territorial e o direito dos povos à autodeterminação são elementos inalienáveis da liberdade ordenada que Leão XIII tanto defendia. É uma falácia acreditar que a mera cessação de bombardeios, sem o compromisso com a reparação e a segurança mútua, possa gerar confiança ou estabilidade. Pelo contrário, apenas semeará o rancor e a sede de retaliação futura.
Nesse labirinto de interesses e retaliações, a verdadeira magnanimidade se revela na capacidade de mirar além do imediato, buscando uma paz que não seja uma armadilha. A loucura lógica, como Chesterton nos alertaria, é esperar que o fruto da injustiça seja a tranquilidade. Uma proposta de paz que não inclua, desde seu ponto de partida, o reconhecimento da agressão, o compromisso com garantias robustas contra futuras incursões e a consideração dos danos causados, será sempre deficitária. A comunidade internacional e os mediadores têm o grave dever de zelar por um processo que fortaleça os corpos intermediários – as nações e seus povos – em vez de esmagá-los sob os ditames dos mais fortes.
A mediação, para ser efetiva, deve ir além da simples facilitação de um acordo entre as partes mais poderosas. Ela exige uma honestidade radical em lidar com as causas primeiras do conflito e com as legítimas aspirações de segurança e justiça de todas as nações envolvidas, incluindo o Irã em sua exigência por garantias e reparação. É preciso que as conversações se deem em um ambiente de reconhecimento mútuo, onde as vozes dos vulneráveis não sejam silenciadas e a integridade territorial seja um princípio inegociável, e não uma moeda de troca.
O mundo está à beira de um precipício, e a busca por um horizonte de paz é imperiosa. Contudo, essa paz só será autêntica se for construída sobre o alicerce firme da justiça, capaz de suportar as intempéries do tempo e os ventos da história. Forjar uma paz que seja apenas a ausência de tiros, mas que ignore a ordem devida e as chagas abertas, não é um caminho para a estabilidade, mas um convite à próxima catástrofe. A verdadeira esperança reside na coragem de buscar não a paz de qualquer jeito, mas a paz justa, que é o único nome da verdadeira ordem.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.