Política RJ: Paes, Castro e a Hipocrisia na Justiça Carioca

O duelo Paes x Castro expõe a hipocrisia e decadência da política carioca. Analisamos a instrumentalização da justiça, acusações de corrupção e os elos do poder com o crime organizado no Rio.

🟢 Análise

O palco da política carioca, que já foi cenário de tragédias e farsas, hoje se assemelha mais a um ringue de boxe amador, onde o barulho dos golpes vazios tenta abafar o murmúrio incômodo da verdade. No centro do picadeiro, o prefeito Eduardo Paes, com o punho em riste e a verborragia afiada de quem se crê imbatível, trovejou acusações contra o governador Cláudio Castro, brandindo as prisões de seus ex-secretários como um troféu macabro e, no mesmo fôlego, vociferando contra uma suposta perseguição política na detenção do vereador Salvino Oliveira. A cena, digna de uma crônica polemista, tem, no entanto, a gravidade de expor a putrefação moral que se insinua nas estruturas do poder, onde o estilo serve à conveniência e a doutrina é mera quimera.

A defesa intransigente do vereador Salvino, tachada de perseguição política, dissolve-se sob o peso da cronologia dos fatos, um farol de reta razão na escuridão da retórica. O processo que culminou na prisão de Oliveira não foi um arroubo de um secretário da Polícia Civil a mando de um governador. Iniciado em outubro de 2024, ele percorreu um longo e multifásico caminho: representação em janeiro de 2026, parecer favorável do Ministério Público, autorização judicial em fevereiro, e expedição de mandados em março. Ou seja, antes que a política pudesse instrumentalizar o fato, a justiça, em suas três esferas independentes — Polícia Civil, Ministério Público e Poder Judiciário — já havia pesado as provas. Reduzir este rito a uma mera manobra eleitoral é não apenas desrespeitar as instituições, mas desdenhar da inteligência do cidadão comum, que, com o senso comum de Chesterton, percebe quando a cortina de fumaça tenta esconder a evidência.

Contudo, a hipocrisia da cena atinge seu ápice quando o mesmo Paes, que exige a inocência de seu aliado “até me apresentarem provas”, desafia o governador a defender ex-secretários cujas acusações não são meras insinuações, mas fatos documentados e investigados por órgãos federais. Raphael Montenegro, ex-secretário de Administração Penitenciária, preso em 2021 por negociar com o traficante Marcinho VP e envolvido na libertação irregular de Abelha, chefe do Comando Vermelho; Alessandro Carracena, ex-secretário de Esportes e Lazer, preso e novamente com ordem de detenção por elos com a mesma facção. Aqui, não se trata de suposições ou vazios processuais, mas de uma chaga aberta no corpo do Estado, de ligações perigosas entre o poder público e o crime organizado que, segundo a Doutrina Social da Igreja, são uma agressão direta à dignidade humana e ao bem comum.

A Doutrina Social da Igreja, baseada na lei natural e na reta razão, prega que a autoridade legítima existe para servir ao bem comum, protegendo os cidadãos da desordem e da injustiça. Quando agentes públicos se curvam ao crime, seja por corrupção, seja por negligência cúmplice, eles não apenas traem o juramento, mas corroem a própria base da confiança social. São Tomás de Aquino nos recorda que a lei humana deve derivar da lei natural, e a justiça não pode ser um capricho político, mas a constante e perpétua vontade de dar a cada um o que é seu. Não há, portanto, espaço para “dois pesos e duas medidas” quando a pauta é a integridade do Estado e a segurança do povo. Defender um aliado sem fatos claros, enquanto se ataca um adversário cujos ex-auxiliares têm ligações com o crime organizado devidamente apuradas, não é outra coisa senão oportunismo político.

As acusações de “roubalheira nas escolas” e desvio de dinheiro da previdência para o Banco Master, lançadas por Paes ao vento, são graves demais para serem apenas munição de um embate eleitoral. Se há crimes, há o dever de denunciá-los formalmente às autoridades competentes, munido de provas, e não apenas vociferar em um palanque midiático. A instrumentalização da justiça para fins políticos é, sim, uma preocupação legítima, um vício que corrompe o Estado Democrático de Direito. Mas a prudência, virtude cardinal, exige que tais acusações sejam acompanhadas de evidências concretas, não de mero proselitismo. Sem provas, o ataque às instituições da Polícia Civil, do Ministério Público e do Poder Judiciário não as fragiliza por suposta manipulação, mas por ser um golpe da própria política contra a confiança pública.

Em ano eleitoral, a tentação de transformar a justiça em arma ou escudo é constante. Os “Polemistas Católicos” sabem que a verdade, por vezes, é dura e impopular. O clamor pela defesa de “crias” de comunidades, quando estas são acusadas de crimes, desvirtua a verdadeira solidariedade, que deve se estender às vítimas da criminalidade e àqueles que honestamente buscam a lei. O dever de um governante é com a justiça, não com a lealdade partidária cega ou com a preservação de carreiras políticas maculadas. A incapacidade de condenar o mal em suas próprias fileiras, enquanto se aponta o dedo para o adversário, é a marca indelével da decadência moral que assola a política brasileira.

A verdade é que o Rio de Janeiro está cansado dos espetáculos pirotécnicos que apenas desviam o foco dos reais problemas: a corrupção endêmica e o domínio do crime organizado, que, infelizmente, parecem encontrar guarida em alas de todos os partidos. É preciso coragem para defender a justiça, mesmo quando ela atinge os próprios aliados; e é preciso ainda mais coragem para calar quando a acusação não passa de um grito vazio. Quando a política se torna um jogo de aparências e ataques pessoais, ela não só envergonha a si mesma, mas trai a confiança da população. Não se combate o crime com mais fumaça, mas com a luz da lei, pois, no fim das contas, a honestidade em público jamais será um ato particular.

Fonte original: InfoMoney

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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