Quando a febre da inflação castiga o país e o pulso do cidadão enfraquece, a tentação de um remédio rápido é compreensível. O governo, em seu pacote de medidas econômicas, promete uma ação “cirúrgica” para conter a alta de preços, que nos últimos doze meses corroeu o poder de compra em 5,2%. Redução de impostos sobre combustíveis, crédito ampliado para pequenos produtores e renegociação de dívidas para famílias de baixa renda soam como alívios necessários. Mas um diagnóstico superficial raramente conduz a uma verdadeira cura.
A estimativa governamental de um impacto de meros 0,8 ponto percentual na inflação ao longo de seis meses é um curativo pequeno demais para a dimensão da ferida. Não se pode chamar de “cirúrgico” um gesto que, ao mesmo tempo em que tenta aliviar pontualmente, injeta novas pressões no sistema. A própria oposição, ao classificar o pacote como “eleitoreiro”, aponta para uma preocupação legítima com a veracidade dos propósitos, sugerindo que o foco pode estar mais na imagem do que na efetiva saúde econômica da na nação.
Aqui reside o paradoxo central, uma contradição de causas que desafia a reta razão e a justiça. De um lado, o governo propõe desonerações, que reduzem a arrecadação e, sem compensação, ampliam a conta pública ou adiam o problema fiscal. De outro, amplia o crédito e renegocia dívidas, estimulando a demanda agregada — justo o oposto do que se faria para desaquecer uma economia em alta inflacionária. Enquanto isso, o Banco Central, com a independência que lhe cabe e a temperança da sua prudência monetária, sinaliza a manutenção de uma taxa Selic elevada, buscando justamente conter os ânimos do consumo para estabilizar os preços.
Essa falta de coerência entre as políticas fiscal e monetária é como um corpo em que uma mão tenta esfriar enquanto a outra acende o fogo. A quem serve, de fato, uma estratégia econômica onde o governo federal tensiona o freio do Banco Central ao acelerar com o pedal fiscal? Pio XI, ao falar da justiça social, sempre nos lembraria que a ordem profissional e a coordenação das forças vivas da economia exigem uma visão orgânica, não uma sequência de impulsos desconexos. As medidas pontuais, ainda que busquem amparar os mais vulneráveis – e a caridade exige que se faça –, podem, se mal calibradas, acabar transferindo o custo da instabilidade para a posteridade, uma injustiça que se paga com a desvalorização do patrimônio e dos salários de todos.
É a sanidade, como diria Chesterton, que se vê ameaçada quando a lógica das soluções se torna tão tortuosa. A realidade econômica, com suas causas e efeitos encadeados, não se dobra a voluntarismos ou a malabarismos de curto prazo. As lições de Leão XIII sobre a liberdade ordenada e a família anterior ao Estado nos lembram que a estabilidade é alicerce para a dignidade da pessoa humana e para a sociedade como um todo. Um governo que não enfrenta as causas estruturais da inflação com um plano coeso e transparente, optando por paliativos que se contradizem, falha em sua responsabilidade de zelar pela ordem justa e pela vida comum.
Não se constrói a fortaleza da economia sobre areias movediças de promessas sem lastro. A sociedade precisa de um governo que ofereça não apenas alívios temporários, mas um plano sustentável, onde a política fiscal e monetária caminhem na mesma direção, em um esforço conjunto pela estabilidade e pela justiça. A verdadeira cura exige mais do que meros analgésicos; exige um diagnóstico honesto e um tratamento que respeite a complexidade do organismo.
Fonte original: Reuters Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.