A Encruzilhada da Democracia: Popularidade, Ética e o Bem Comum
A filiação de Pablo Marçal nos interpela a revisitar os fundamentos da política à luz de Aristóteles e Tomás de Aquino, buscando a prudência no governo das paixões e a verdade na busca do bem comum.
O recente anúncio da filiação do influenciador digital Pablo Marçal ao União Brasil, com a clara intenção de utilizá-lo como “puxador de votos” — apesar de sua inelegibilidade pendente e um histórico de condenações por má-conduta eleitoral — desvela uma tensão perene na vida pública: o embate entre a busca pragmática pelo poder e a imperativa exigência de integridade ética e justiça. Este episódio não é um mero fato político isolado; ele serve como um espelho das contradições de nossa época e nos convoca a uma reflexão mais profunda sobre os fundamentos da ordem política e moral.
É inegável que a ascensão de figuras públicas com grande alcance digital transforma o cenário político, introduzindo novas dinâmicas de engajamento e mobilização. A busca por candidatos capazes de galvanizar o eleitorado é uma estratégia legítima de partidos políticos em democracias representativas. Contudo, o caso Marçal — marcado por condenações que vão do uso indevido de meios de comunicação à difusão de informações falsas e à prática de atos que configuram compra de votos — levanta questionamentos graves que transcendem a mera disputa partidária, atingindo a própria dignidade do processo eleitoral e a confiança nas instituições.
As preocupações levantadas por uma leitura crítica deste cenário são, em grande medida, legítimas. A instrumentalização de indivíduos para fins puramente eleitorais, a aparente prevalência do capital midiático sobre a coerência programática e a integridade moral, e a percepção de que certas infrações podem ser relativizadas em nome do “volume de votos” são, de fato, erosivas para a democracia. O descumprimento de ordens judiciais e a lentidão na aplicação de sanções, somadas à busca por atalhos e acordos questionáveis, fragilizam o Estado de Direito e a equidade que deve pautar qualquer disputa eleitoral.
Todavia, é preciso ir além da mera denúncia. A crítica, quando se limita a apontar falhas estruturais sem um fundamento teleológico claro, pode resvalar para um idealismo irrealizável ou para a centralização excessiva de poder. Propiciar uma verdadeira “democratização do acesso à informação” ou “fortalecer a justiça eleitoral” são metas nobres, mas suas soluções propostas, se não ancoradas em princípios perenes, podem conduzir a excessos de controle estatal que minam a liberdade individual e a responsabilidade da sociedade civil. O erro não está em buscar a popularidade, mas em buscá-la a qualquer custo, desvirtuando o bonum utile (o voto como meio) do bonum honestum (a eleição como serviço ao bem comum).
Para transcender este impasse, devemos nos voltar aos mestres da razão e da virtude.
Primeiramente, a teleologia aristotélica nos recorda que toda ação humana, e com maior razão a ação política, deve orientar-se a um fim. O fim último da vida em sociedade não é o poder pelo poder, nem o sucesso eleitoral a qualquer custo, mas sim o bem comum — a condição de prosperidade moral e material que permite a todos os membros da comunidade alcançar sua plena realização (eudaimonia). Quando partidos priorizam o “puxador de votos” em detrimento da integridade e da conformidade com a lei, eles desviam-se deste telos, convertendo a política num jogo de interesses particulares, e não num serviço público.
Em segundo lugar, São Tomás de Aquino, ao desenvolver a noção de Lei Natural, sublinha a existência de princípios morais universais acessíveis à razão humana. A veracidade, a justiça e o respeito às normas estabelecidas são mandamentos da lei natural que se aplicam rigorosamente ao processo eleitoral. A difusão de notícias falsas e a manipulação dos eleitores, como visto no caso do laudo forjado contra um adversário, são atos intrinsecamente maus, pois violentam a busca da verdade e a capacidade de discernimento dos cidadãos, ambos essenciais para uma escolha livre e informada. A dignidade da pessoa humana, fundamento inegociável da Doutrina Social da Igreja, é ultrajada quando o eleitor é tratado como um mero objeto de manipulação.
A prudência (phrónesis), a virtude cardeal que nos permite discernir o que é justo nas circunstâncias concretas, é a bússola para navegar por estas águas turbulentas. A prudência exige que o estadista não seja nem um idealista ingênuo que ignora a realidade, nem um cínico que sacrifica os princípios por ganhos imediatos. Ela nos convida a buscar o meio-termo virtuoso entre a rigidez inflexível e a complacência permissiva. É prudente que os partidos busquem figuras com apelo popular, mas é imprudente que o façam ignorando a ética ou as exigências da lei. É prudente que a justiça seja ágil, mas também que ofereça caminhos para a reabilitação, como o acordo com a Promotoria Eleitoral pode sugerir, respeitando a dignidade do indivíduo mesmo em seu erro, e estimulando a correção e a reintegração.
A solução genuína para o dilema não reside em um maior controle estatal ou em “reformas” que centralizam ainda mais o poder. Pelo contrário, a subsidiariedade — outro pilar da Doutrina Social da Igreja — nos ensina que as decisões e responsabilidades devem ser exercidas no nível mais próximo do cidadão. O problema da “mercantilização da política” não será resolvido apenas com leis mais duras, mas com a revitalização da sociedade civil: a família, as escolas, as associações e as comunidades locais devem reassumir seu papel na formação de cidadãos conscientes, com senso crítico e virtude cívica. É a partir da base que se constrói uma cultura política de respeito à verdade e ao bem comum, onde a solidariedade se manifesta no apoio mútuo e na busca coletiva pelo florescimento humano, sem paternalismos estatais.
Visão Integrada: Um Caminho de Virtude e Responsabilidade
A superação das contradições superficiais do debate sobre Pablo Marçal e o uso de “puxadores de votos” exige que elevemos a discussão ao plano dos princípios permanentes. Não se trata de escolher entre popularidade e ética, mas de integrar ambas sob o primado da virtude. A política, em sua essência, deve ser a arte de governar para o bem comum, e isso demanda líderes que não apenas atraiam votos, mas que inspirem confiança através de sua integridade e serviço.
A responsabilidade é tripla: dos partidos, em selecionar candidatos com genuíno compromisso com o serviço público e a ética; da justiça eleitoral, em aplicar a lei com equidade e celeridade, mas também com prudência, oferecendo caminhos de correção; e, crucialmente, dos cidadãos, em exercer sua liberdade responsável, discernindo as propostas e os caracteres, educando-se para além dos meros slogans e espetáculos midiáticos. A verdadeira força da democracia reside não na mera contagem de votos, mas na qualidade moral e intelectual do povo que vota e dos líderes que escolhe. Que a prudência nos guie para uma política que seja, antes de tudo, virtuosa, e que o bem comum seja o horizonte inegociável de toda ação.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ Este artigo foi gerado pelo sistema Síntese News utilizando análise dialética automatizada (Tese → Antítese → Síntese). As fontes originais são citadas ao longo do texto. O conteúdo foi revisado editorialmente antes da publicação.