O Estreito de Ormuz, que deveria ser um canal de vida, tornou-se o nó corredio de uma conflagração que ameaça estrangular não apenas o comércio de petróleo, mas a própria esperança de ordem e justiça no Oriente Médio. Em meio à poeira e ao cheiro de pólvora que se espalham pelo deserto, a narrativa que reduz o conflito a uma agressão unilateral e primária do Irã ignora a perigosa teia de retaliações e escaladas recíprocas que tem sido tecida, fio a fio, por todos os lados envolvidos. Não se trata de absolver o regime iraniano de suas manobras desestabilizadoras, de seu programa nuclear sob suspeita ou de seus ataques que ferem e matam inocentes; mas de reconhecer que a chama inicial desta fase de barbárie foi acesa por ações que também partiram dos Estados Unidos e de Israel, precipitando um ciclo de violência que agora escapa ao controle.
A verdade, sempre a primeira vítima da guerra, é aqui duplamente ferida. De um lado, pelos mísseis que atingem civis e se aproximam de instalações nucleares em Dimona e Natanz, elevando o espectro de uma catástrofe inimaginável que transcende fronteiras e gerações. De outro, pela repressão brutal à liberdade de expressão em nações como Emirados Árabes Unidos e Catar, onde centenas são detidos por “espalhar boatos”, enquanto a informação se torna uma arma e um privilégio de estados que querem controlar a narrativa a todo custo. Há uma urgência, à luz da veracidade, em clamar por dados independentes sobre os milhares de mortos e milhões de deslocados no Irã e no Líbano, que não podem ser apenas números frios em relatórios governamentais ou de ONGs.
A soberba das potências, que se traduz em ultimatos destemperados e retóricas de “vitória militar” proferidas por figuras políticas, desconsidera a complexidade de uma região martirizada e a santidade da vida humana. A presença militar massiva, o envio de bombardeiros de capacidade nuclear e a pressão sobre países neutros, como a Suíça, para abandonar seus princípios de não-intervenção em nome de uma aliança militar, corroem a ordem moral pública e a credibilidade dos esforços diplomáticos. O que se vê é a primazia da força bruta sobre o direito, da conveniência geopolítica sobre a busca por uma paz justa e duradoura.
Neste cenário de desarranjo e sofrimento, o que a doutrina social da Igreja nos lembra é que a justiça não pode ser reduzida à mera aplicação da força, nem a segurança à intimidação militar. A verdadeira justiça exige a distribuição equitativa dos encargos, o respeito aos direitos fundamentais de cada pessoa e de cada nação, e a salvaguarda de uma ordem institucional que promova o bem da cidade e a paz social. É preciso que as nações voltem a considerar a proporção entre os meios e os fins, entre o ataque e a retaliação, sob pena de ver a região — e com ela, o mundo — mergulhar em um abismo sem retorno.
Que o clamor dos inocentes, antes que se perca no deserto de cinzas, ressoe como um imperativo de justiça e um apelo à verdade que, por fim, liberta as nações.
Fonte original: ISTOÉ Independente
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.