Há rotas marítimas que não são meros traçados em papel, mas artérias pulsantes da vida civilizacional, daquelas que, se entupidas, ameaçam gangrenar o corpo econômico e social do mundo. O Estreito de Ormuz é uma delas, um gargalo por onde flui uma parte crucial do comércio global de energia. A tentativa recente do ex-Presidente Donald Trump de forjar uma coalizão naval internacional para confrontar o alegado controle iraniano sobre este estreito encontrou, contudo, um mar de recusas por parte de aliados tradicionais, revelando fissuras profundas na aliança e uma complexa teia de interesses que vai muito além das proclamações de guerra e paz.
A recusa de nações como Alemanha, França, Austrália, Japão, China, Noruega, Espanha, Polônia e Suécia em aderir à iniciativa norte-americana não pode ser simplificada como mera deslealdade ou “miopia moral”. É, antes, o reflexo de um cálculo prudencial que pondera os riscos de uma escalada militar imprevisível contra os benefícios de um alinhamento automático. A preocupação legítima com a manutenção da liberdade de navegação choca-se com a relutância em ser arrastado para um conflito que, aos olhos de muitos, carece de objetivos claros, de consulta prévia adequada e de uma liderança percebida como volátil. A retórica sobre uma “guerra” iniciada em 28 de fevereiro, sem detalhes concretos sobre sua declaração e participantes, apenas adensa a névoa, tornando a adesão militar uma aposta de alto risco.
No cerne da questão está a virtude da justiça, tanto no que tange à liberdade de navegação internacional quanto à transparência e veracidade das relações entre Estados. O direito de passagem inocente por estreitos internacionais, consagrado pelo direito marítimo, é um bem comum global. A declaração iraniana de que o estreito está “fechado aos petroleiros e embarcações dos inimigos do Irã” e “sob controle”, embora permita a passagem de outros, levanta sérias questões sobre a arbitrariedade e a seletividade que podem desestabilizar as rotas comerciais. A justiça não se dobra à conveniência do mais forte nem à retórica do ressentimento; exige critérios universais e transparentes, aplicáveis a todos.
Ademais, a veracidade na comunicação pública, princípio basilar da Doutrina Social da Igreja, é posta à prova. Declarações grandiloquentes sobre “numerosos países” a caminho ou sobre mais de uma centena de embarcações iranianas “afundadas ou destruídas” – desmentidas pelos fatos ou pela simples ausência de provas – corroem a confiança e o diálogo. Como já ensinava Pio XII, a comunicação responsável é vital para a ordem moral pública, e a desinformação, especialmente em tempos de tensão, não apenas confunde, mas também contamina a base sobre a qual qualquer cooperação genuína pode ser construída. A sanidade exige mais do que a retórica que dobra a realidade aos próprios desejos.
A falha em formar a coalizão, portanto, é um sintoma. De um lado, aponta para os limites de uma abordagem unilateralista que espera lealdade sem construir consenso e que, ao invés de articular uma “liberdade ordenada”, tenta impô-la. De outro, revela uma falha na solidariedade entre nações em garantir um bem comum vital. Se a proteção de rotas essenciais para a economia global não pode ser assegurada por um esforço conjunto e justo, então a própria estrutura da governança internacional e a credibilidade das alianças são postas em xeque. Não se trata de endossar a retórica anti-imperialista da fonte, que muitas vezes reduz a complexidade geopolítica a esquemas ideológicos simplórios, mas de reconhecer que a cooperação não brota de ordens, mas de um compromisso compartilhado com a lei e a reta razão.
O caminho adiante, complexo e árduo, não reside nem na imposição militar forçada, nem na aceitação tácita de controles arbitrários. Reside na busca incansável por mecanismos diplomáticos que reafirmem o direito internacional da navegação, que desescalem as tensões com diálogo franco e que construam uma ordem justa baseada em princípios, e não em ameaças ou chantagens. Os “corpos intermediários” da sociedade internacional — as alianças e instituições multilaterais — precisam ser revitalizados não como meros braços de um poder hegemônico, mas como espaços de verdadeira subsidiariedade e solidariedade, onde as decisões são tomadas com base no bem comum de todos, e não apenas nos interesses de poucos.
A rota da paz e da prosperidade global, vital como o ar que respiramos, exige que todas as nações carreguem juntas o peso de sua guarda, sob o farol inquestionável da lei justa e da palavra verdadeira.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.