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Oriente Médio: Soluções Absolutas vs. Defesa Estratégica

No Oriente Médio, a ilusão de soluções 'absolutas' para conflitos é desmascarada. O artigo defende a defesa estratégica e contínua, com justiça, visando uma paz duradoura e imperfeita.

🟢 Análise

Quando a pretensão humana se choca com a obstinação da realidade, nasce a ilusão de que um único golpe pode cortar o nó górdio de séculos. A análise de Thomas L. Friedman, ao denunciar a futilidade de soluções militares que buscam um “fim absoluto” para os conflitos no Oriente Médio, acerta na crítica a uma certa ingenuidade política. De fato, a história da eliminação das gerações de lideranças do Hamas — de Yahya Ayyash a Yahya Sinwar — seguida pela constante regeneração de novos quadros, é um testemunho amargo de que os problemas complexos não se resolvem apenas com cirurgias pontuais. Grupos como Hamas e Hezbollah não são meros tentáculos; eles brotam de um caldo cultural e ideológico que não se drena com ataques de drones.

No entanto, a perspicácia em desmascarar a falácia do “de uma vez por todas” não pode degenerar em um fatalismo que paralisa a ação legítima. Há uma distância considerável entre a busca quimérica por uma erradicação total e a necessidade inarredável de estados soberanos se defenderem e protegerem suas populações. O dilema não é entre a inação complacente e a quimera de uma vitória definitiva. É entre uma gestão estratégica da segurança, que visa a dissuasão, a contenção e a degradação das capacidades adversárias, e uma omissão que entregaria os cidadãos ao arbítrio da barbárie. A doutrina católica, ao reconhecer o direito e o dever de legítima defesa do Estado, impõe a justiça como virtude cardeal nesse cálculo, exigindo que a força seja usada com proporcionalidade e sempre visando a ordem justa e a paz, mesmo que esta seja imperfeita e precária.

A analogia do “milkshake”, embora espirituosa, simplifica em demasia a complexidade dos fenômenos geopolíticos. Não se trata apenas de “extrair o recurso” ou “drenar até secar”, mas de enfrentar uma planta daninha que, ao ser cortada na superfície, pode regenerar suas raízes se o solo não for tratado. É preciso reconhecer que, mesmo sem a ilusão de extirpar a raiz com um único golpe, arrancar as ervas daninhas da superfície é um trabalho contínuo e necessário para que a colheita não se perca por completo. A fortaleza é a virtude que nos chama a resistir tanto à tentação da solução fácil e definitiva quanto à paralisia da desesperança. Ela nos impulsiona a agir com perseverança, mesmo sabendo que a luta pela ordem é uma tarefa que se estende por gerações.

Nesse contexto, a crítica à tentação política de declarar “vitórias finais” é válida. A promessa de um “fim absoluto” no Oriente Médio, ou em qualquer outro palco de atrito civilizacional, é uma quimera que se choca com a imperfeição da natureza humana e a persistência do mal. Pio XII, em sua lucidez, já distinguia o “povo” da “massa”, alertando contra as forças despersonalizantes que podem ser instrumentalizadas em movimentos hostis. A regeneração das lideranças do Hamas é um sintoma da não resolução das questões mais profundas que geram a “massa” de onde emergem esses líderes. A veracidade nos impõe reconhecer que a intervenção militar, por si só, não pode operar a mudança cultural e moral necessária para a paz duradoura.

Assim, quando o governo de Israel elimina líderes de grupos terroristas, o objetivo pode não ser o de “erradicar” o problema, mas o de degradar suas capacidades, proteger vidas no curto e médio prazo, e alterar o cálculo de risco do adversário, ganhando tempo para outras soluções, políticas e sociais. Essa é a essência da continuidade institucional na gestão de crises permanentes: manter a capacidade de resposta, adaptar estratégias e proteger a integridade do Estado e de sua população, sem cair na armadilha da ilusão de que todo conflito tem um botão de desliga. A negação da eficácia de tais ações táticas, sob o pretexto de que não trazem uma “solução de uma vez por todas”, pode levar à complacência e à irresponsabilidade.

Portanto, a busca por uma ordem justa e a defesa do bem da cidade exigem uma ação contínua, estratégica e prudente. A verdade é que a paz no Oriente Médio, como em tantos outros lugares, não será uma linha de chegada, mas uma obra em constante construção, uma jardinagem diária contra as ervas daninhas, que exige mão firme e olhos abertos para a complexidade do terreno. A verdadeira paz não é a ausência de guerra a qualquer custo, mas a ordem justa que se constrói e se defende com tenacidade, dia após dia, reconhecendo que há batalhas que se travam para semear, não para colher a vitória final.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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