A imagem do “cano de uma guerra mais ampla”, evocada pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, desenha um horizonte de clareza sombria. No entanto, a “escada da diplomacia” que ele propõe como saída parece menos um caminho sólido e mais uma miragem distante, incapaz de tocar a realidade incandescente do Oriente Médio. Enquanto o drama humanitário se aprofunda e o Estreito de Ormuz, vital para a economia global, é parcialmente bloqueado, a retórica de desescalada, embora bem-intencionada, arrisca-se a ser um gesto performático, descolado da intrincada teia de interesses estratégicos e assimetrias de poder que realmente movem o tabuleiro.
A preocupação legítima com o risco de uma escalada regional e global é inegável, assim como o sofrimento civil e as repercussões econômicas do bloqueio marítimo. Estes, porém, são sintomas agudos de males crônicos. A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, nos ensina que a paz duradoura não é meramente a ausência de conflito, mas o fruto da justiça e da caridade. Não se pode pretender curar uma ferida profunda com uma pomada superficial se a causa da infecção permanece intocada. Os apelos genéricos, que não diferenciam responsabilidades nem propõem mecanismos concretos de garantia de segurança e soberania para as partes, diluem a urgência e a verdade que a situação exige.
A Organização das Nações Unidas, por sua natureza, tem uma autoridade moral e normativa inestimável, mas sua capacidade coercitiva é limitada frente a estados soberanos que percebem sua existência ou seus interesses vitais em risco. Pio XII, ao distinguir o “povo” da “massa”, já advertia contra a tentação de tratar nações e culturas como entidades homogêneas a serem gerenciadas, e não como corpos sociais complexos com histórias, memórias e feridas concretas. Exigir que “todos parem de subir a escada da escalada” pode parecer justo, mas é um reducionismo perigoso se desconsidera quem de fato a subiu primeiro, quem dela se beneficia e quem é arrastado contra a própria vontade.
Aqui entra a virtude da veracidade. Uma diplomacia eficaz, para ser moralmente fundada, precisa ser intelectualmente honesta. Ela deve nomear os agressores, identificar os propósitos ilegítimos e apontar as vias justas para a resolução. A mensagem de Guterres ao Irã para “parar de atacar seus vizinhos” é um passo nessa direção, mas não pode ser diluída num apelo indistinto. O quadruplicar dos preços dos seguros navais e os danos às instalações de gás e petróleo são evidências materiais de uma instabilidade que não será dissipada por exortações abstratas. A ordem moral pública exige que a verdade dos fatos seja o primeiro alicerce de qualquer tentativa de reconstrução.
Não se trata de negar a importância do diálogo, mas de qualificar seu conteúdo. Sem um plano exequível que aborde garantias de segurança concretas, sem uma real capacidade de impor o cumprimento de acordos e sem diferenciar as responsabilidades pela escalada, a diplomacia corre o risco de ser um paliativo retórico que apenas adia, a custo humano e econômico elevadíssimo, o ajuste de contas. A justiça demanda que as causas estruturais sejam enfrentadas, que os direitos dos povos sejam respeitados e que a soberania de cada nação seja defendida contra a ingerência e a agressão.
A paz, quando desatada dos laços da justiça e da veracidade, torna-se uma trégua frágil, não a ordem duradoura que o mundo necessita.
Fonte original: Poder360
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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