O cheiro de pólvora e petróleo é o perfume fétido da desrazão que se espalha pelo Oriente Médio, sufocando a lógica e a moral. Não há paz na mira dos mísseis, nem segurança na contagem de escombros e vidas perdidas. A escalada de violência entre Israel, os Estados Unidos e o Irã, longe de acenar com uma solução, desenha um cenário de caos que, dia após dia, compromete não apenas a vida dos povos na região, mas a estabilidade econômica e a ordem moral do mundo.
Os fatos são brutais: Israel amplia seus ataques, adentrando o Líbano, e o Irã responde com retaliações que atingem instalações vitais de gás no Catar e até aviões em solo israelense. O Estreito de Ormuz, gargalo crucial para o comércio global de energia, está bloqueado. Os preços do barril de petróleo disparam, e a fatura é paga por consumidores em todo o planeta, esmagando orçamentos familiares e paralisando indústrias. É um paradoxo cruel que, enquanto o Pentágono requisita cifras astronômicas – 200 bilhões de dólares para sustentar a guerra –, o Tesouro americano considere derrubar sanções ao petróleo iraniano, usando “os barris iranianos contra os iranianos” para tentar arrefecer um incêndio que a própria estratégia militarista ajudou a acender.
Neste cenário, a preocupação mais legítima não é apenas geopolítica, mas profundamente humana. Milhares de civis já perderam a vida no Irã, no Líbano e na Cisjordânia. Cidades viram-se alvos, infraestruturas essenciais foram destruídas e a sombra da fome e do deslocamento paira sobre milhões. É a tragédia do “povo versus massa” que o Papa Pio XII já denunciava: a redução de vidas individuais, de famílias e comunidades a meros números na estatística da guerra, ignorando a dignidade intrínseca de cada pessoa. A violência não é um cirurgião que extirpa o mal, mas um fogo descontrolado que consome indiscriminadamente.
As narrativas de “vitória decisiva” em “20 dias” ou de “eliminar os bandidos” são perigosos reducionismos que flertam com o delírio. Elas negam a complexidade histórica e cultural da região, transformando adversários em caricaturas e camuflando a ausência de um plano coerente. A promessa de Netanyahu de rotas alternativas de petróleo e gás através de Israel, embora tecnicamente possível, soa mais como uma consolidação de poder regional do que uma solução global imediata, e ignora a vastidão dos desafios logísticos e a relutância de aliados como a Alemanha, que se recusam a enviar navios para um estreito em fogo. Tal pretensão, ao desconsiderar as consequências amplas, trai um grave déficit de veracidade na comunicação política.
A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na justiça e na reta razão, adverte que a paz não é a ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem. A ordem, por sua vez, exige a subordinação dos interesses particulares ao bem comum e o respeito à lei moral universal. Quando o direito à vida e à segurança dos povos é sacrificado em nome de uma segurança nacional estreita, ou de interesses econômicos imediatos disfarçados de estratégia militar, há uma falha grave na ordem dos bens. A decisão de assassinar altos funcionários, validando a barbárie por decreto, choca-se frontalmente com os princípios de um Estado de direito e da ordem moral pública que Pio XII tanto defendeu. Uma “guerra cultural” que não seja legítima, justa e com meios lícitos, degenera-se em barbárie.
A urgência de estabilizar mercados é real, mas o caminho para essa estabilidade não pode ser a contradição entre bombardeios e a busca desesperada pelo petróleo do bombardeado. Esta estratégia cínica, que tenta usar o inimigo para mitigar os próprios custos, será lida como fraqueza e não como força, fomentando ainda mais a instabilidade e o ressentimento. O ceticismo crescente entre aliados demonstra que a falta de um plano claro e de uma conduta moral inabalável fragiliza qualquer coalizão, deixando o mundo à mercê de forças sem controle.
Não há vitória duradoura que se construa sobre a areia da injustiça, da mentira e do sofrimento de inocentes. A real segurança advém da paz fundada na verdade, na justiça e na caridade, e não na promessa vã de um triunfo rápido obtido a um custo humano e econômico incalculável. A humanidade, como um navio à deriva em um mar tempestuoso, anseia por um porto seguro, não por mais ondas de destruição.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.