O palco montado no Parque da Cidade de Budapeste, onde Viktor Orbán reuniu a autoproclamada “ultradireita europeia”, era uma orquestração de símbolos, discursos grandiloquentes e aplausos coreografados. Mas a verdadeira força de um projeto político raramente se revela nos brados de uma assembleia; ela se mede, isto sim, na discrição da boa administração e na retidão das ações cotidianas.
É legítimo, sim, que um governo aspire à soberania plena, que defenda a identidade cultural de seu povo e que navegue as águas complexas da diplomacia internacional conforme seus interesses nacionais. Ninguém nega o direito de um Estado-nação de traçar seu próprio curso diante dos ventos ideológicos que sopram de Bruxelas ou de outras capitais. A crítica à centralização e à burocratização excessiva da União Europeia, por exemplo, encontra eco em muitos.
Contudo, quando essa aspiração se choca com a realidade de fatos concretos e acusações robustas, o lustre da retórica esmaece. Fala-se em patriotas, em heróis, em “leões” que veem onde os outros são cegos, mas os holofotes revelam também outras cenas: a reforma faraônica de 275 milhões de euros no prédio do Banco Nacional da Hungria, financiada com dinheiro público, em contraste com a precariedade de muitos; a violação de padrões ambientais por anos numa fábrica da Samsung em Göd, com trabalhadores expostos a pó tóxico e um governo que, informado, não agiu. Tais episódios, que merecem e exigem o devido processo legal, não podem ser varridos para debaixo do tapete da “defesa da pátria”.
Aqui, o Magistério da Igreja, pela pena de Pio XII ao distinguir “povo” de “massa”, oferece um discernimento essencial. Um povo verdadeiro se ergue sobre a base da ordem moral pública e da probidade em sua vida comum, não sobre a manipulação de sentimentos ou a blindagem de escândalos. A justiça exige que os encargos sejam distribuídos equitativamente e que os recursos públicos sirvam ao bem de todos, e não ao luxo de poucos ou à negligência conveniente frente a empresas poderosas. A retidão do governo não é um adorno, mas o substrato sobre o qual se edifica qualquer pretensão de grandeza nacional.
Ainda que as relações diplomáticas com qualquer nação, inclusive a Rússia, sejam prerrogativa de um Estado soberano, a veracidade impõe limites à opacidade. As transcrições de conversas secretas entre o ministro do Exterior húngaro e seu homólogo russo, quando vêm à tona, lançam uma sombra sobre a transparência esperada em assuntos de Estado. Não se trata de um prejulgamento político, mas de exigir que a política externa sirva aos interesses da nação com clareza, e não à conveniência de acordos que escapam ao escrutínio público e à lealdade que se espera dos tratados internacionais.
É uma loucura lógica, como talvez Chesterton nos lembraria, esperar que a pátria se sustente apenas com a grandiloquência das palavras, enquanto seus fundamentos são minados pela desatenção à retidão prática. A humildade exige reconhecer que mesmo o mais ambicioso projeto de restauração nacional só prospera se alicerçado na honestidade dos gestos e na vigilância constante contra a tentação do poder desmedido, que corrompe tanto o pequeno desvio quanto o grande ideal.
Portanto, o desafio posto não é apenas o de lutar contra “os cegos de Bruxelas”, mas, sobretudo, o de garantir que a casa não desabe por descaso interno. A defesa da soberania e dos valores tradicionais só tem ressonância moral quando acompanhada da exemplaridade na gestão do que é comum e da inegociável busca pela justiça. O verdadeiro patriotismo é um edifício construído sobre a verdade, e não um cenário montado para aplausos.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.