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ONU: O Instrumento da Paz e a Crise da Vontade Política

A ONU não é a causa, mas um reflexo da crise. A paz global exige a vontade política e a solidariedade dos Estados-membros, superando o egoísmo nacional. Análise e apelo.

🟢 Análise

A Organização das Nações Unidas, frequentemente evocada como baluarte da paz mundial, é hoje, na percepção popular, um gigante com pés de barro. A crescente escalada de conflitos, a multiplicação de atores não estatais em cenários de guerra e a aparente paralisia em crises como a da Ucrânia ou as tensões no Oriente Médio, onde o Irã figura com destaque, fazem com que muitos questionem a própria viabilidade do projeto multilateral nascido das cinzas da Segunda Guerra. Há, sim, uma preocupação legítima e profunda com a persistência da violência, com o impacto humanitário das hostilidades e com a capacidade das instituições internacionais de mediar e resolver disputas que, por vezes, parecem insolúveis.

Não se pode negar o drama real das populações civis em zonas de conflito, nem os desafios enfrentados por diplomatas e missões de paz que operam em ambientes complexos e perigosos. A existência de grupos criminosos e terroristas, bem como de milícias políticas, que desestabilizam regiões inteiras, é um problema concreto que exige uma resposta séria e articulada. A paz, afinal, como ensinou Santo Agostinho e reiterou São Tomás de Aquino, não é meramente a ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem — e uma ordem que se desfaz em tantas partes do globo clama por atenção.

Contudo, a análise da ineficácia da ONU, para ser séria, não pode resvalar em generalizações vazias ou na atribuição simplista de culpa. Quando uma “carta de leitor” aponta para “conflitos em ascensão” ou para “armamentos sofisticados” do Irã sem lastro em dados verificáveis ou fontes claras, descamba-se para a retórica, não para o diagnóstico. É preciso uma honestidade intelectual para discernir a realidade da mera impressão. O mesmo vale para a súbita e despropositada menção a uma reportagem sobre arquitetos e um centro cultural local, em meio a uma discussão sobre segurança internacional; tal desconexão não apenas desvia o foco, mas revela um preocupante laxismo no tratamento de temas graves, esvaziando a autoridade da própria crítica. Pio XII, em sua advertência contra a massificação e a comunicação irresponsável, já apontava para o perigo de uma narrativa pública que despreza a verdade factual em favor da emoção ou da conveniência.

A Organização das Nações Unidas não é um governo mundial, dotado de poder soberano irrestrito para intervir a seu bel-prazer. Ela é um instrumento, uma arena de negociação e um marco legal, cuja eficácia depende intrinsecamente da vontade política e da cooperação de seus Estados-membros, especialmente os mais poderosos. O poder de veto no Conselho de Segurança, por exemplo, não é uma falha da “máquina” da ONU, mas um reflexo direto da assimetria de poder geopolítico e da soberania nacional, princípios que, embora por vezes incômodos, são pilares do direito internacional moderno. Criticar a ONU por não “evitar uma guerra” sem considerar que muitas vezes são os próprios Estados-membros que, em sua intransigência ou busca por interesses particulares, paralisam a ação multilateral, é desviar a responsabilidade.

A justiça internacional, que a ONU busca promover, exige que cada nação atue não apenas em defesa de seus interesses estreitos, mas em vista do bem da cidade global, como diria Leão XIII ao falar da propriedade e da família. O problema fundamental não reside tanto na arquitetura institucional da ONU, que é, com todas as suas imperfeições, o melhor arranjo que a humanidade até agora conseguiu forjar para a diplomacia multilateral, mas na ausência de magnanimidade e solidariedade entre as grandes potências. A estatolatria, criticada por Pio XI, quando o Estado se torna um fim em si mesmo, impedindo qualquer esforço supranacional genuíno, é um entrave maior à paz do que qualquer deficiência burocrática da ONU.

Portanto, a solução para a instabilidade global não passa por uma condenação precipitada e infundada das instituições, mas por um apelo à conversão moral dos Estados. Exige-se um discernimento reto, uma honestidade intelectual que reconheça as limitações estruturais e as conquistas diplomáticas da ONU, por mais modestas que sejam, e uma vontade política renovada para que as nações, em vez de se entrincheirarem em seus egoísmos, cooperem para a construção de uma ordem internacional mais justa e pacífica. A paz não se forja apenas em conselhos e resoluções, mas na firmeza da vontade de cada nação em submeter seu poder à causa maior da ordem justa.

Fonte original: Diário da Região

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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