O clamor das multidões, em se tratando de ídolos do esporte, tem a força de uma maré que inunda não só as arquibancadas, mas também os gabinetes de decisão. A recente entrevista de Carlo Ancelotti ao L’Equipe, onde acena com a possibilidade de convocação de Neymar para a Copa do Mundo, não é apenas uma nota no noticiário esportivo; é um teste de princípios, de discernimento e de coragem. O técnico, que diz convocar apenas os “fisicamente aptos” e afirma que Neymar “está no caminho certo”, enfrenta um dilema que transcende o campo: como pesar o legado de um jogador contra a fria realidade de sua condição física atual e o imperativo da justiça para o coletivo?
Os fatos são teimosos. Aos 34 anos, vindo de uma grave lesão no joelho em dezembro, Neymar atuou apenas seis vezes em 2026. Embora esteja “marcando gols”, o que se exige de um atleta em uma Copa do Mundo é um nível de intensidade, ritmo de jogo e resiliência que apenas dois meses podem não ser suficientes para restaurar. Há uma preocupação legítima sobre o risco de comprometer a coesão tática e o desempenho da Seleção Brasileira com um jogador cuja aptidão plena ainda é uma aposta, enquanto outros em forma aguardam sua chance. A sombra da “pressão” de entidades comerciais e midiáticas, que buscam no craque uma moeda de visibilidade, levanta a questão da independência da escolha técnica.
É aqui que a voz da reta razão se faz urgente, distinguindo o que é “povo” do que é “massa”, como ensinava Pio XII. O povo possui juízo; a massa, volubilidade. O fervor em torno de Neymar, impulsionado por milhões de seguidores e uma mídia que capitaliza sobre a aura do ídolo, arrisca transformar uma decisão técnica em uma concessão ao sentimentalismo coletivo ou ao interesse mercadológico. A ordem dos bens, para São Tomás de Aquino, exige que o bem superior — o desempenho e o sucesso coletivo da equipe que representa a nação — não seja sacrificado em nome de um bem secundário, como o apelo midiático ou a memória afetiva de um passado glorioso.
A virtude da justiça demanda que a convocação seja pautada pelo mérito presente e pela contribuição real ao corpo da equipe. Não é justo com os demais atletas, que suam em campo e se dedicam com afinco, que o critério para uma vaga na Seleção seja obscurecido por fatores alheios à performance atual. Igualmente, a veracidade exige uma avaliação honesta e desapaixonada da condição de Neymar. Uma “ótima recuperação” e “estar marcando gols” são requisitos, sim, mas insuficientes para atestar a capacidade de suportar o peso e a intensidade de uma Copa do Mundo. A verdade do campo não se dobra ao desejo; ela se impõe pela forma física e técnica.
Chesterton, com seu gênio para desmascarar as loucuras lógicas da modernidade, talvez diria que é uma forma de insanidade esperar que a glória passada possa, por si só, carregar o presente. Não basta ser Neymar; é preciso ser o Neymar apto para a Copa. A sanidade do discernimento deve prevalecer sobre a paixão cega ou os cálculos comerciais. Ancelotti, como capitão deste navio, precisa demonstrar a fortaleza para resistir às sirenes do marketing e ancorar sua decisão na realidade objetiva, garantindo que cada um a bordo esteja pronto para a tempestade da competição.
O desafio de Ancelotti é aplicar o que o corpus católico nos lembra sobre a responsabilidade e o compromisso: a equipe, enquanto corpo intermediário, exige de seus membros honestidade, laboriosidade, temperança e, acima de tudo, responsabilidade para com o bem comum do grupo. O “caminho certo” de Neymar deve ser pavimentado não apenas com gols, mas com métricas inquestionáveis de condicionamento físico e com a prova de que sua presença eleva, e não arrisca, a coesão tática. Uma convocação, se ocorrer, deverá ser defendida não pela nostalgia, mas pela incontestável prontidão do jogador.
O sucesso de uma nação no campo de futebol, como em qualquer empreendimento coletivo, edifica-se sobre a primazia do mérito e da verdade. A bola, afinal, não distingue entre o gênio do passado e a realidade do presente, mas entre o suor e a verdade de cada chute.
Fonte original: R7
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.