A febre que toma conta da nação em ano de Copa do Mundo é um fenômeno curioso. Entre as discussões, uma domina as rodas de conversa e os espaços midiáticos: a presença ou ausência de uma estrela maior. Não se discute a arquitetura tática, a coesão de grupo ou a forma dos demais vinte e dois homens que entrarão em campo. O foco se estreita sobre um nome, uma lenda em vida, e o destino que lhe será traçado pelo treinador. Argumentos fervorosos, banhados em paixão e até em antigas feridas pessoais, são lançados como flechas para pressionar uma decisão que, por natureza e por justiça, deveria ser técnica e serena.
É inegável o talento de Neymar, a capacidade de desequilíbrio que ele já demonstrou em momentos decisivos. É uma preocupação legítima desejar que os maiores talentos da nação estejam presentes para representar o país. Tampouco se ignora a experiência do técnico Ancelotti em lidar com egos e gerir constelações em clubes de elite, um conhecimento que, em tese, o capacitaria a integrar qualquer figura de proa. O desejo ardente de um “Hexa” é uma aspiração de todos, e a tentação de se apegar a um nome que, no passado, carregou essa esperança é compreensível para quem assiste.
Contudo, a paixão, quando desordenada, turva o discernimento. A tentativa de transformar uma decisão técnica, baseada em forma, condição física e adaptabilidade tática, em uma questão de “redenção” pessoal ou de “obrigação moral” para com o talento, é um reducionismo perigoso. O futebol, embora espetáculo individual, é fundamentalmente um esporte coletivo. O bem de um time não se mede pela soma aritmética de talentos isolados, mas pela sinergia de suas partes, pela funcionalidade do conjunto. O que se espera de um treinador não é que seja um colecionador de cromos, mas um artífice capaz de moldar um instrumento homogêneo e potente, onde cada peça cumpre sua função em harmonia com o todo.
A verdadeira justiça, neste contexto, não reside em satisfazer a expectativa popular ou a nostalgia de feitos passados, mas em discernir quem, no presente e para o propósito imediato da competição (com sua preparação limitada de um mês), está em melhores condições para servir ao bem da equipe. Isso significa avaliar a condição física e técnica atual, e não apenas o brilho pretérito; considerar a coesão tática e o espírito de grupo, que podem ser afetados pela inclusão de um jogador que não esteja em sua plenitude ou que demande um rearranjo desnecessário. A autoridade legítima do técnico, neste sentido, é uma manifestação da prudência no governo do time. É ele quem detém a responsabilidade final, e não a voz uníssona da mídia ou a experiência de um passado que, embora dolorosa para o colunista, não pode ser o critério para uma decisão técnica futura.
A sanidade, como diria Chesterton, é a virtude de ver as coisas como elas são, não como gostaríamos que fossem ou como a retórica emocional as pinta. É uma loucura lógica sugerir que o sucesso de um empreendimento tão complexo como a conquista de uma Copa do Mundo reside unicamente na presença de um indivíduo, por mais genial que ele seja. Essa perspectiva ignora o mérito dos demais jogadores, o trabalho de equipe, a estratégia do treinador e as inúmeras variáveis que compõem o torneio. A defesa fervorosa de um nome em particular, alçada ao patamar de imperativo, mais desvia o foco do debate sobre a meritocracia esportiva do que contribui para uma seleção forte e equilibrada.
Não se trata de negar o talento, mas de ordená-lo. Um corpo, para ser saudável, precisa que cada órgão funcione em seu lugar e em sua devida condição. Assim é uma seleção. A busca pelo “Hexa” não justifica a flexibilização de critérios técnicos e táticos em favor de um apelo emotivo. A glória da nação no esporte se construirá não pela presença de um salvador solitário, mas pela união e pelo desempenho daqueles que, justa e objetivamente, provarem estar em melhor condição para lutar pelo destino comum.
O técnico, ao fim e ao cabo, deve ser o guardião da equipe, um artífice da justiça e da prudência, montando um time que seja não apenas um aglomerado de estrelas, mas um organismo vivo e funcional, capaz de converter a esperança em realidade, pelo mérito e pela coesão de todos.
Fonte original: Home
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