A promessa de uma ferramenta reluzente, forjada para esculpir a eficiência e aparar arestas, é um canto de sereia antigo, que hoje ecoa no silício e nos algoritmos. A Neohype, com seu percurso de quase trinta anos, personifica essa saga digital brasileira, narrando uma história de reinvenção que promete transformar o labirinto burocrático em um rio de agilidade. Luiz Mattar, o ex-tenista que trocou as quadras pelo empreendedorismo, e seu CEO, Luiz Iannini, celebram a capacidade da empresa de conectar grandes companhias ao éter digital, digitalizar operações e, com a inteligência artificial, resolver chamadas de autoatendimento em 35% e, pasme-se, evitar R$ 57 milhões em fraudes financeiras para um banco. A retórica é clara: a tecnologia não substitui, mas *transforma* o trabalho, liberando o humano para ser “consultor”, e não mero atendente massivo. O Brasil, afinal, “ainda está alguns anos atrás em tecnologia”, e há um vasto campo a ser arado. A empresa até investe em universidade corporativa para formar os profissionais necessários, um gesto louvável, dizem eles, que alinha lucro com responsabilidade.
Contudo, por trás da superfície sedutora dos números e da promessa de um futuro automatizado, assomam sombras que a Doutrina Social da Igreja sempre encarou com seriedade. A eficiência, embora um bem, não pode ser o único critério para o desenvolvimento humano e social. São Tomás de Aquino nos recorda que toda causa eficiente deve ter uma causa final reta, e essa finalidade não pode ser outra senão o bem do homem, em sua integralidade. Quando a “automação e a digitalização” se tornam fins em si mesmos, ou quando o custo-benefício monetário eclipsa o custo humano, invertemos a ordem natural dos bens. Não basta substituir o braçal pelo intelectual se o contingente de braçais é simplesmente descartado, sem um plano robusto e digno de absorção na nova economia. A pergunta incômoda permanece: para cada “atendente massivo” que vira “consultor”, quantos outros são lançados à margem, sem qualificação ou oportunidade?
A dignidade do trabalho humano, um pilar que Leão XIII em sua *Rerum Novarum* e Pio XI em *Quadragesimo Anno* tão veementemente defenderam, não pode ser relativizada pela corrida tecnológica. O trabalho não é apenas uma mercadoria a ser otimizada ou substituída; é a expressão da pessoa, um meio de sustento e de participação na criação. É razoável esperar que as empresas, especialmente as que colhem lucros substanciais (R$ 536 milhões em 2025, com projeção de 15% de crescimento), assumam uma responsabilidade mais ampla que a mera formação de talentos *tech* para suas próprias fileiras. A `laboriosidade` e a `responsabilidade` das empresas devem se estender à `justiça` na transição, garantindo que o progresso tecnológico não se traduza em exclusão social para vastas parcelas da população. A universidade corporativa é um bom começo, mas a escala do desafio exige políticas de requalificação socialmente abrangentes, com participação ativa dos setores econômicos e do Estado, aplicando o princípio da subsidiariedade para fortalecer os corpos intermediários e as comunidades locais na absorção desses desafios.
Além do mais, a glorificação da IA e da automação para a “experiência do cliente” não pode silenciar as preocupações legítimas sobre a ética dos algoritmos. A inteligência artificial preditiva, usada para “analisar comportamento de clientes e antecipar riscos”, carrega em si o risco de viés discriminatório, especialmente em áreas sensíveis como a aprovação de crédito. Os R$ 57 milhões em fraudes evitadas são notáveis, mas qual o custo dos “falsos positivos”, daqueles que foram injustamente negados ou categorizados por um sistema opaco, sem a chance de uma avaliação humana empática? A “jornada conversacional no WhatsApp” pode ser fluida e resolutiva para muitos, mas para os menos digitalizados ou para aqueles cujas necessidades transcendem o escopo de um *bot*, ela se torna uma barreira. Onde está a `temperança` que freia o ímpeto de automatizar tudo, sem considerar as nuances humanas?
A concentração de poder e de conhecimento técnico nas mãos de poucos provedores de tecnologia, como a Neohype e seus parceiros (ex: Meta), cria uma dependência crescente para as grandes corporações clientes. A longo prazo, essa dependência pode minar a autonomia operacional e a flexibilidade das empresas, forçando-as a operar dentro de ecossistemas controlados. O “Brasil ainda está alguns anos atrás em tecnologia”, como disse Mattar, mas a solução não é a importação acrítica de modelos ou a aceleração sem discernimento. Exige-se um juízo reto que avalie não apenas a viabilidade técnica e a rentabilidade imediata, mas também os impactos sociais, éticos e estratégicos de longo prazo.
A retórica da “transformação” é bela, mas deve ser posta à prova da `justiça` social. Se a Neohype, e tantas outras no setor, está a edificar uma nova paisagem econômica, que o faça com bases sólidas na dignidade humana, na solidariedade e na responsabilidade compartilhada. A verdadeira inovação não é meramente a técnica que otimiza, mas a que humaniza, a que integra e a que serve à comunidade em todas as suas dimensões.
O futuro não está nos algoritmos que nos servem, mas nos princípios que os governam.
Fonte original: Exame
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.