O corpo social, como qualquer organismo vivo, não se sustenta apenas de picos de adrenalina ou intervenções espetaculares, mas da constância silenciosa dos batimentos, da circulação ininterrupta, do cuidado diário. Quando se anuncia, com o alarde de um feito inédito, que o Sistema Único de Saúde (SUS) realizará um mutirão para oferecer 230 mil exames e cirurgias, além de 3,8 mil implantes de Implanon, a primeira e mais honesta reação não deveria ser a do aplauso irrestrito. Pelo contrário, a grandeza de tal ação, vendida como um triunfo histórico, serve antes como um diagnóstico da febre crônica que assola o sistema.
Não se nega o alívio imediato que 230 mil procedimentos trarão à vida de tantas mulheres, nem a praticidade do transporte gratuito oferecido. Devolver a qualidade de vida e a esperança é, sem dúvida, um ato de caridade. Mas a virtude da justiça, essencial para uma ordem social reta, exige que o acesso à saúde não dependa de arranjos pontuais, mas de um sistema robusto e contínuo. É preciso ter a veracidade de encarar o paradoxo: uma “maior iniciativa da história do SUS” que surge para compensar aquilo que a história diária do SUS deveria prover sem a necessidade de um evento.
Essa cultura do mutirão, recorrente e celebrada, revela uma fratura grave na estrutura da saúde pública. Não se trata de uma solução, mas de um paliativo de alto custo e impacto midiático que, ao mesmo tempo em que apaga pequenos incêndios, desvia o olhar da combustão lenta dos problemas maiores. Como bem ensinava Pio XI, a subsidiariedade exige que as comunidades menores e as estruturas locais sejam fortalecidas para resolver seus próprios problemas, sem que o poder central esmague sua iniciativa ou se torne o único provedor de soluções. A centralização em grandes mutirões, por mais bem-intencionada, pode minar a capacidade das redes municipais de saúde de se organizarem para atender às demandas de forma orgânica e permanente.
Onde está a justiça social quando o direito ao tratamento se torna dependente de uma “seleção” e um “agendamento prévio” com critérios pouco transparentes, deixando milhares de outras mulheres na mesma fila de espera de sempre? A pergunta incômoda permanece: se é possível mobilizar mais de 940 hospitais, em 516 municípios, e milhões em recursos para uma ação concentrada em um único final de semana, por que essa capacidade não é direcionada para assegurar que esses mesmos procedimentos sejam rotineiramente acessíveis, sem que a população precise aguardar pela próxima campanha?
A Doutrina Social da Igreja adverte contra a tentação da estatolatria, onde o Estado se apresenta como o salvador providencial, obscurecendo a necessidade de instituições intermediárias e da própria responsabilidade cívica e profissional. Um sistema de saúde que funciona por surtos de generosidade governamental, e não por fluxos de serviço contínuo, acaba por transformar o cidadão em massa expectante, em vez de povo que participa ativamente da gestão de seu bem mais elementar. A oferta do Implanon, por exemplo, embora louvável, deve ser parte de uma política de saúde sexual e reprodutiva integral, e não um item isolado entregue em um pacote promocional.
A verdadeira laboriosidade na gestão pública não reside na organização de eventos, por mais impressionantes que sejam, mas na persistência em construir e manter uma rede de serviços que funcione em todos os dias do ano, garantindo a continuidade institucional e o acompanhamento pós-procedimento com a mesma seriedade. Não se pode louvar a rapidez da entrega sem questionar a lentidão que a tornou necessária.
Um sistema de saúde robusto e justo não é aquele que faz mais mutirões, mas aquele que os torna desnecessários. O bem-estar de um povo se constrói na fidelidade ao ordinário, na atenção permanente às necessidades de cada um, e não na ostentação de milagres pontuais que, ao invés de curar, apenas revelam a enfermidade crônica que ainda nos aflige.
Fonte original: AGORA MT
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.