No contexto do Dia Internacional da Mulher de 2026, o cenário político do Maranhão revela uma transformação estrutural com o fortalecimento da presença feminina nas esferas de poder, conforme levantamento do jornal O Imparcial. O estado registra uma fase inédita de mulheres em câmaras municipais, no parlamento estadual e no Congresso Nacional, ocupando postos estratégicos de liderança política. Essa inflexão histórica demonstra que mulheres maranhenses influenciam agendas legislativas e executivas.
Segundo o levantamento de O Imparcial, "o marco mais simbólico dessa mudança ocorre na Assembleia Legislativa do Maranhão (ALEMA)". Pela primeira vez em quase dois séculos, o parlamento estadual é presidido por uma mulher, a deputada Iracema Vale (PSB), que foi eleita e posteriormente reconduzida por unanimidade para o biênio 2025-2027. Iracema Vale tornou-se "o principal símbolo institucional da ascensão feminina na política maranhense", e sua gestão coincide com a maior bancada feminina já registrada no parlamento, formada por 12 deputadas estaduais. Entre as iniciativas notáveis, está a criação do Observatório do Feminicídio, articulado pela presidência da Assembleia em parceria com a Procuradoria da Mulher, conduzida pela deputada Daniella, e a implementação do auxílio financeiro para órfãos do feminicídio, que se tornou política pública estadual.
No âmbito federal, a senadora Eliziane Gama (PSD) atuou como relatora da comissão parlamentar mista que investigou os ataques às instituições ocorridos em 2023. Ela defende a proposta de garantir 20% das vagas de mandato para mulheres no novo Código Eleitoral e articula a possibilidade de disputar a presidência do Senado em 2025. Na Câmara dos Deputados, o Maranhão é representado por três deputadas federais: Detinha (PL), a candidata mais votada do Maranhão em 2022, Roseana Sarney (MDB), descrita como "figura histórica da política estadual", e Amanda Gentil (PP). No executivo municipal, as eleições de 2024 elegeram 42 mulheres prefeitas no Maranhão, contra 173 prefeitos homens, além de dezenas de mulheres eleitas vice-prefeitas.
Na Câmara Municipal de São Luís, a legislatura 2025-2028 conta com cinco mulheres entre 31 cadeiras. A vice-prefeita de São Luís, Esmênia Miranda, pode assumir a prefeitura caso o prefeito Eduardo Braide (PSD) renuncie até 2 de abril de 2026 para concorrer ao governo estadual. Esmênia e Braide foram reeleitos em 2024 com 69,5% dos votos no primeiro turno. Caso a transição ocorra, Esmênia será a quarta mulher a comandar a capital maranhense. O levantamento completo foi divulgado por O Imparcial em 8 de março de 2026.
A celebração do incremento da representatividade feminina nas esferas de poder do Maranhão, conforme o levantamento de O Imparcial, merece ser enquadrada em uma análise mais profunda que transcenda o dado numérico. Embora o avanço na ocupação de cadeiras legislativas e executivas por mulheres constitua um marco simbólico na democratização formal do espaço político, é crucial questionar se tal progresso significa uma verdadeira transformação estrutural ou se, por vezes, mascara a persistência de assimetrias de poder e desigualdades materiais que afetam a maioria das mulheres. O desafio reside em ir além da mera visibilidade para alcançar a equidade substantiva, onde a presença feminina não apenas espelhe a sociedade, mas ativamente a remodele em bases mais justas.
A leitura acrítica do aumento da participação feminina corre o risco de confundir a política do reconhecimento com a política da redistribuição, um dilema central apontado pela filósofa Nancy Fraser. A ascensão de mulheres a cargos de destaque, ainda que louvável em termos de reconhecimento da igualdade de gênero e do direito à participação, não garante automaticamente a reformulação das estruturas socioeconômicas que perpetuam a vulnerabilidade social e a precarização da vida de muitas mulheres, especialmente as periféricas, negras e indígenas. A narrativa foca em indivíduos notórios, alguns com trajetórias ligadas a oligarquias políticas tradicionais, o que suscita a indagação sobre quais agendas estas mulheres, uma vez no poder, de fato priorizam e se suas ações se traduzem em políticas públicas inclusivas capazes de desafiar o status quo e promover a redistribuição de recursos e oportunidades para as parcelas mais oprimidas da população feminina.
O risco é que a "ascensão feminina" seja cooptada pelas lógicas dominantes, como observa Jessé Souza ao analisar as elites brasileiras, que historicamente se adaptam e incorporam novos atores para manter privilégios, sem alterar as raízes da desigualdade. A criação de observatórios de feminicídio ou a instituição de auxílios financeiros, embora medidas emergenciais necessárias, tendem a ser reativas e não enfrentam as causas profundas da violência de gênero, que frequentemente residem na desigualdade econômica e na ausência de autonomia das mulheres. A persistência de uma vasta maioria masculina nas prefeituras do Maranhão (173 homens contra 42 mulheres) e a dependência da ascensão de uma vice-prefeita à renúncia de um titular masculino, ilustram que as barreiras estruturais ainda são robustas, e a representação feminina, mesmo que crescente, opera dentro de um sistema cujas regras ainda são majoritariamente ditadas por lógicas masculinas e patriarcais.
Para que a presença feminina na política seja de fato revolucionária, é imperativo que ela se traduza em uma agenda robusta de direitos fundamentais, que priorize a redistribuição de riqueza, o acesso equitativo à educação de qualidade, à saúde e à moradia digna, e o fortalecimento de mecanismos de participação popular que amplifiquem as vozes das mulheres que vivem à margem. A verdadeira transformação estrutural não se mede apenas pela quantidade de mulheres em espaços de poder, mas pela capacidade dessas mulheres e da sociedade como um todo de promoverem políticas que desmantem as raízes da desigualdade de gênero e de classe, construindo um Maranhão mais justo e equitativo para todas.
Participação Feminina na Política Maranhense: Além dos Números
O debate acerca da crescente participação feminina na política maranhense, especialmente em cargos de destaque como a presidência da Assembleia Legislativa, oferece um solo fértil para uma reflexão mais profunda sobre o que realmente constitui o progresso social e a boa governança. É inegável a valia de se celebrar a ascensão de mulheres a posições de liderança, um feito que, em si, rompe com velhas amarras e amplia o horizonte de possibilidades para as novas gerações. Contudo, essa celebração, embora legítima, não pode eclipsar a necessidade de um escrutínio mais agudo sobre a natureza dessa transformação, para que não confundamos mera visibilidade com uma equidade substantiva, capaz de reformar o tecido social em sua essência.
Há uma preocupação genuína, expressa pela antítese, em questionar se o incremento numérico de mulheres em cadeiras de poder traduz-se automaticamente em uma reconfiguração das estruturas que geram desigualdade. O risco reside em que a política do reconhecimento, que valoriza a presença e a identidade, não seja acompanhada pela política da redistribuição, que altera as condições materiais da vida das pessoas. Esse discernimento é crucial para evitar que o avanço formal mascare a persistência de assimetrias profundas, especialmente para as mulheres que vivem à margem das oportunidades. A história nos mostra que a mera mudança de rostos, sem uma mudança de propósito orientada ao bem comum, pode solidificar privilégios em vez de desmantelá-los.
A superação de tal dilema exige que nos elevemos acima da dicotomia simplista entre a celebração acrítica do número e o ceticismo que beira o niilismo. Não se trata de desmerecer a conquista de espaço por mulheres, mas de qualificar essa conquista. Segundo a prudência aristotélica, a virtude não reside nem no excesso de um entusiasmo ingênuo nem na falta de reconhecimento das dificuldades. Ela reside na capacidade de discernir o que é bom e o que é verdadeiro em cada situação. A ascensão de uma mulher à presidência do parlamento ou a aprovação de leis como o auxílio a órfãos do feminicídio são, sem dúvida, frutos de um legítimo anseio por justiça e proteção, e representam passos importantes na dignificação da pessoa humana, um pilar inabalável da Doutrina Social da Igreja.
Entretanto, é fundamental que a agenda política das mulheres, uma vez no poder, transcenda o particular e se oriente ao bem comum de toda a comunidade. Como nos ensina São Tomás de Aquino, a lei humana deve ser ordenada à lei natural e, em última instância, à lei eterna, buscando sempre a promoção da justiça, da paz e da caridade. Isso implica que a presença feminina na política deve servir para fortalecer a subsidiariedade, valorizando as comunidades locais e suas iniciativas, e a solidariedade, estendendo a mão aos mais vulneráveis, independentemente de gênero. A questão não é apenas "quem governa", mas "como se governa" e "para quem se governa". Se a gestão promove a dignidade de todos, se combate as raízes da pobreza e da exclusão, então ela caminha na direção da justiça.
Nesse sentido, a verdadeira medida do progresso não se restringe à contagem de cadeiras ocupadas por mulheres, mas se manifesta na qualidade das políticas públicas implementadas. Observatórios e auxílios, embora necessários como respostas a violências e carências, devem ser acompanhados por ações que construam autonomia, ofereçam educação de qualidade e oportunidades econômicas equitativas para todos. O desafio é usar essa representatividade para edificar uma sociedade onde a vulnerabilidade seja minimizada, onde as causas profundas da desigualdade sejam enfrentadas com coragem e onde a participação cívica seja verdadeiramente inclusiva, garantindo que as vozes de todos os segmentos, especialmente os mais marginalizados, sejam ouvidas e consideradas.
Assim, a elevação do debate transcende a simples métrica da representatividade. O que se busca é a prudente construção de uma comunidade política que encarne os princípios da lei natural, onde a dignidade de cada pessoa, homem ou mulher, seja incondicionalmente respeitada. O fortalecimento da participação feminina na política do Maranhão, e em qualquer lugar, deve ser um meio para alcançar um fim maior: uma sociedade mais justa, solidária e fraterna, onde o bem comum seja o horizonte de todas as ações. Isso exige não apenas mais mulheres na política, mas mulheres e homens que, munidos de virtude e razão reta, governem com sabedoria, justiça e caridade, mirando a plena realização humana de cada cidadão.
Fonte original: O Imparcial
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.