A socióloga Jacqueline Moraes Teixeira, em entrevista divulgada em 10 de março de 2026 pelo portal racismoambiental.net.br, reportou que a direita busca conexão com as necessidades das mulheres evangélicas, enquanto o centro e a esquerda enfrentam dificuldades em se aproximar desse eleitorado. A pesquisadora, em diálogo telefônico com o Instituto Humanitas Unisinos (IHU), abordou a complexidade da identidade política da direita no Brasil e o perfil das eleitoras evangélicas.
Teixeira, que realiza um estudo com Lívia Reis, indicou que, embora haja uma crescente identificação de mulheres evangélicas com candidatos de direita, elas mantêm a expectativa de que o Estado responda às suas necessidades sociais por meio de políticas públicas. A socióloga destacou que "as mulheres evangélicas na faixa dos 40 anos, reconhecidas como chefes de família, estão no centro da função do cuidado porque são responsáveis pelas mais velhas e pelas mais novas. Nesse sentido, existe uma demanda e um interesse muito específico sobre essa temática de políticas públicas de cuidado." Pesquisas e dados do Censo 2022 apontam que a maioria desse público é composta por mulheres entre 14 e 45 anos, majoritariamente negras, urbanas e com concentração no Norte, dependentes de programas como o Bolsa Família e com demandas por saúde, educação e desenvolvimento social.
A pesquisadora ressaltou que a fé não direciona o voto apenas para correligionários, mas "aciona uma necessidade de construção da confiança, a qual vem pela rede, no sentido de que é preciso entender de onde está vindo o candidato." Partidos como PL e Republicanos, por meio de iniciativas como PL Mulher e Republicanas, têm buscado lideranças comunitárias e religiosas, focando em temas como violência de gênero e família. Teixeira observou que "o PL Mulher ainda não está dentro da candidatura de Flávio Bolsonaro, o que faz com que outras candidaturas de mulheres de direita fiquem numa posição refrataria à candidatura dele." A socióloga também abordou a contraposição entre feminismo e "feminino", explicando que a ideia de feminino, apesar de se opor ao feminismo, "não nega o conteúdo das pautas históricas do feminismo. Ao contrário, traz essas pautas para si, as ressignifica e as purifica, afirmando que elas não seriam propriamente femininas."
Jacqueline Moraes Teixeira, graduada em Ciências Sociais e Teologia, com mestrado e doutorado pela USP, atua como pesquisadora e professora na instituição. Em 10 de março de 2026, ela participaria de uma live promovida pelo IHU sobre "O '8 de março' em meio a feminismos e antifeminismos". O IHU também promoverá em 11 de março de 2026 o início do "Ciclo de estudos: Gênero, Religião, Política". De 2022 a 2024, Teixeira coordenou com Lívia Reis um estudo no Instituto de Estudos da Religião (ISER) que analisou a conjuntura eleitoral e a percepção do governo Lula.
A análise da socióloga Jacqueline Moraes Teixeira, ao descrever a capacidade da direita em capitalizar as demandas sociais de mulheres evangélicas em contraste com a dificuldade da esquerda, convida a uma leitura crítica. O relato, focado na estratégia eleitoral, obscurece as condições estruturais que tornam esse eleitorado suscetível à instrumentalização política. Desvia-se, assim, o olhar das assimetrias de poder, negligenciando a questão fundamental sobre quem se beneficia e quem é prejudicado por essa co-optação de pautas.
A vulnerabilidade social dessas mulheres – muitas chefes de família, majoritariamente negras, urbanas e dependentes de programas sociais e políticas de cuidado – evidencia desigualdades estruturais. A "necessidade de construção da confiança" pela rede religiosa, eficaz na mobilização, pode ser interpretada como um mecanismo de direcionamento político que preenche lacunas deixadas por políticas públicas inclusivas. A co-optação de pautas feministas, "ressignificadas" sob um "feminino" conservador, exemplifica o que a filósofa social Nancy Fraser chamaria de luta por reconhecimento desviada de objetivos emancipatórios, reforçando hierarquias de gênero sob falsa representação.
Essa dinâmica, onde demandas legítimas por proteção e cuidado são instrumentalizadas por partidos que promovem austeridade, alinha-se à crítica de Jessé Souza sobre a manipulação das classes populares pelas elites brasileiras. Souza argumenta que a precarização estrutural cria terreno fértil para discursos que oferecem soluções paliativas, desviando o foco das raízes materiais das desigualdades. A dependência do Estado, somada ao cortejo de forças que o enfraquecem, evidencia uma contradição que aprisiona este eleitorado na intersecção de gênero, raça, classe e geografia, tornando-o alvo de narrativas que prometem acolhimento sem propor a democratização e redistribuição de poder.
A dificuldade do campo progressista exige mais que ajustes comunicacionais; demanda rearticular um projeto de sociedade que enfrente as desigualdades estruturais. Isso implica na construção de políticas públicas inclusivas que promovam autonomia e participação popular, investindo em políticas de cuidado que valorizem o trabalho invisibilizado e na garantia universal de direitos fundamentais como saúde, educação e oportunidades econômicas dignas. A verdadeira democratização passa por empoderar esses grupos a reivindicar seus direitos e a participar da construção de um modelo social que assegure equidade e redistribuição duradoura de riquezas e poder.
Mulheres Evangélicas e Política: Fé, Direita e Necessidades Sociais
A Complexa Interseção: Mulheres Evangélicas, Política e Demandas Sociais
O debate em torno da crescente adesão de mulheres evangélicas a candidaturas de direita, e a aparente dificuldade dos campos progressistas em se conectar com este eleitorado, revela mais do que uma mera disputa estratégica. Ele desnuda as complexas intersecções entre fé, política e as prementes necessidades sociais que permeiam a vida de milhões de brasileiras. A observação de que estas mulheres, muitas delas chefes de família, urbanas, negras e dependentes de políticas de amparo social, buscam no Estado e nas redes de confiança soluções para suas demandas de cuidado, saúde e educação é um fato inegável que exige uma análise que transcenda a superficialidade das táticas eleitorais.
Confiança Comunitária e o Risco da Instrumentalização Política
É natural que as comunidades, em sua busca por estabilidade e amparo, se voltem para as estruturas que lhes oferecem algum sentido de pertencimento e capacidade de resposta. Edmund Burke nos lembraria que a sociedade é um organismo complexo, construído sobre "pequenos batalhões" de afetos e laços comunitários — entre os quais, no Brasil, as igrejas evangélicas desempenham um papel central. A confiança, como bem apontado, não é apenas um cálculo frio, mas uma construção forjada no convívio e na partilha de valores. Contudo, essa legítima busca por conexão e apoio não pode obscurecer o risco de que as legítimas aspirações por justiça e bem-estar sejam cooptadas ou instrumentalizadas, transformando o genuíno cuidado em mera estratégia eleitoral.
A crítica de que as demandas sociais são por vezes instrumentalizadas, reforçando hierarquias ou desviando o foco das desigualdades estruturais, possui seu mérito. É uma preocupação válida que a "ressignificação" de pautas de proteção e cuidado possa, paradoxalmente, enfraquecer o verdadeiro empoderamento das mulheres, aprisionando-as em narrativas que, sob o véu de um "feminino" conservador, limitam seu pleno desenvolvimento e sua dignidade. Aqui, a filosofia de Alasdair MacIntyre nos adverte sobre o perigo de uma política desprovida de uma teleologia moral compartilhada, onde a linguagem da virtude pode ser esvaziada de seu conteúdo substancial, tornando-se mera retórica para fins de poder. A genuína "purificação" de pautas não pode ser um subterfúgio para a manutenção de estruturas injustas, mas um caminho para alinhar a ação política com a verdade sobre a pessoa humana.
Princípios para a Superação: Lei Natural, Subsidiariedade e Doutrina Social
A superação deste embate exige um retorno aos fundamentos perenes da lei natural e do bem comum, guiado pela prudência. A dignidade inerente de cada mulher, criada à imagem e semelhança de Deus, deve ser o farol que ilumina toda e qualquer política pública. Não se trata de uma escolha entre o apoio social do Estado ou o fortalecimento das comunidades, mas de uma sinergia, em consonância com o princípio da subsidiariedade. As políticas de cuidado, por exemplo, devem respeitar e fortalecer a função primária da família e da comunidade, atuando o Estado como suporte e garantidor quando estas estruturas se mostram insuficientes, sem, contudo, substituí-las ou desempoderá-las. A fidelidade à Doutrina Social da Igreja, que defende a vida desde a concepção, a sacralidade da família como união entre homem e mulher, e a opção preferencial pelos pobres, oferece um balizamento inegociável.
Portanto, a tarefa primacial é discernir, com sabedoria prática, entre a instrumentalização de necessidades e o apoio sincero ao florescimento humano integral. Isso exige que os agentes políticos, de qualquer espectro, se aproximem destas mulheres não apenas como eleitoras, mas como pessoas dotadas de dignidade inalienável, com aspirações legítimas e uma rica vida de fé. A prudência exige que se vá além da superfície das pautas e se investigue o cerne da questão: como promover políticas que genuinamente elevem a condição humana, garantam a justiça social e salvaguardem a família, respeitando a liberdade responsável de cada indivíduo e a vitalidade das comunidades, em vez de manipulá-las para fins ideológicos ou eleitorais.
Por uma Política de Virtude e Bem Comum Autêntico
A verdadeira superação do debate não reside em qual corrente política melhor "captura" um eleitorado, mas em como a ação política pode ser elevada para servir ao bem comum de forma autêntica. Isso significa reconhecer a importância das redes de confiança e das instituições religiosas como parceiras legítimas na construção de uma sociedade justa e solidária, e não como meros canais de transmissão de mensagens políticas. Trata-se de uma política enraizada na virtude e na caridade, que vê no cuidado com o outro a manifestação concreta da solidariedade e que busca construir um futuro onde a dignidade de cada pessoa seja verdadeiramente respeitada e promovida, em sua integralidade, e não apenas em aspectos convenientes a determinada agenda.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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