Quando a retórica da vitória pinta com cores vibrantes um quadro de progresso, é preciso ter a clareza para discernir o que é feito de solidez e o que é de mera projeção. Mato Grosso celebra um “salto” na alfabetização, um avanço digno de nota se confirmado por alicerces firmes, e não por projeções sobre areia movediça. O governo estadual festeja a entrega de milhões a escolas premiadas e um suposto recorde de 75% de crianças alfabetizadas na idade certa, com a ambiciosa promessa de chegar a 100% já em 2026. Tal anúncio, vindo de uma única fonte e com ares de autoproclamação, mais do que aplausos, deve gerar, para o juízo reto, uma dose saudável de espanto e suspeita.
A tentação de transformar a educação em um palco de celebração de números é antiga e persistente. O que é “alfabetizado na idade certa”? Quais os critérios do Índice de Desempenho Educacional (IDEMT-ALFA) e do Sistema de Avaliação do Estado, que servem de base para tamanhos feitos? A ausência de uma auditoria externa e de uma metodologia publicamente detalhada para esses indicadores é um convite aberto à dúvida. A experiência nos mostra que, onde o dinheiro e o prestígio público estão fortemente atrelados a metas específicas, a fronteira entre o avanço real e o “ensinar para a prova” se torna perigosamente tênue, comprometendo a veracidade do processo educacional.
A Doutrina Social da Igreja, atenta à dignidade da pessoa e à complexidade da vida em comunidade, adverte contra a estatolatria – a divinização do Estado ou de suas métricas como fim em si. Reduzir a riqueza da formação humana a percentuais frios de alfabetização, por mais importantes que estes sejam, é desfigurar o propósito da educação. O verdadeiro progresso não se contenta com a mera contagem, mas exige o escrutínio da qualidade, da profundidade e da sustentabilidade. Sem isso, corremos o risco de aplaudir uma fachada bem pintada, enquanto a estrutura da casa padece de vícios ocultos.
É nesse contexto que a destinação dos recursos financeiros se torna reveladora. Enquanto R$ 5,5 milhões premiam os que já alcançaram o sucesso, um montante significativamente menor — R$ 2,75 milhões — é destinado a 100 escolas com desempenho insatisfatório, e ainda assim de forma condicional. A justiça e a solidariedade demandariam que o investimento nos mais frágeis, aqueles que mais precisam de apoio para superar suas defasagens estruturais, fosse não só robusto, mas prioritário, e não um mero apêndice, metade do prêmio dos melhores. A subsidiariedade nos ensina que o Estado deve fortalecer os corpos intermediários e as comunidades locais, dando-lhes os meios para resolver seus problemas, e não apenas recompensar ou penalizar com base em resultados de testes.
A Política Pública de Literatura “Ler Mais MT”, ao propor a distribuição de livros, aponta para um caminho certo, mas ainda incompleto. A mera “troca da tela pelo livro” é uma visão simplista diante da complexidade do letramento contemporâneo, que exige também o letramento digital e crítico. A família, como sociedade primeira (Leão XIII), tem papel insubstituível. Sem um plano detalhado para a formação contínua dos professores, para a infraestrutura que garanta a perenidade do hábito leitor e para a integração de pais e responsáveis, a distribuição de material literário pode, mais uma vez, se perder na superficialidade da ação sem a profundidade da transformação. A laboriosidade na educação é um trabalho de formiga, que se constrói passo a passo, e não de saltos mirabolantes.
A verdadeira edificação de uma cultura letrada não se mede por metas que acenam com a perfeição em prazos curtos, mas pela paciência artesanal de quem sabe que o homem, para ser livre, precisa antes ser plenamente formado, em veracidade e justiça, sobre um alicerce que transcende qualquer número.
Fonte original: Sair do Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.