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Movimento Antiguerra nos EUA: Ausência de Força Cívica

A ausência de um forte movimento antiguerra nos EUA persiste, mesmo com a desaprovação popular. O artigo examina o ativismo disperso e o desafio de transformar indignação em força cívica.

🟢 Análise

A anomalia que se apresenta no coração da república americana é um sintoma alarmante: a ausência de um movimento antiguerra de peso, capaz de ecoar a desaprovação generalizada da população e frear a máquina de conflitos permanentes. Os trilhões de dólares gastos em guerras impopulares e as vidas ceifadas — ainda que, por vezes, distantes do olhar do cidadão médio — parecem não mais galvanizar uma resistência cívica à altura do desafio. Onde se esconde a fibra moral para lutar pela paz, como outrora clamava Albert Einstein?

Os fatos, teimosos em sua materialidade, revelam um cenário preocupante. Dados recentes indicam que a aceitação inicial de ofensivas militares, como a perpetrada contra o Irã, atinge o patamar mais baixo já registrado em pesquisas. No entanto, o fluxo de dinheiro para o aparato bélico não cessa, e as operações militares se sucedem, muitas vezes mascaradas pelas chamadas “guerras de drones”, que poupam o impacto visual dos caixões retornando e, com isso, amortecem a consciência pública sobre o custo humano real. As redes sociais, em vez de consolidarem a indignação, frequentemente a diluem em bolhas, gerando um ativismo disperso que carece de musculatura para organizar movimentos duradouros.

Não se pode, contudo, cair no reducionismo de afirmar que o sentimento antiguerra desapareceu por completo. A objeção que aponta para um ativismo fragmentado, mas existente, é legítima. Há, sim, cidadãos que protestam em suas esferas, há expectativas de novas ondas de manifestações. A forma de organização cívica evolui, e a comparação com os anos 1960, com seu alistamento militar obrigatório e altas taxas de mortalidade americana, peca por desconsiderar as particularidades históricas. Não se trata, pois, de uma ausência absoluta, mas de uma transformação nas formas de manifestação e organização.

A questão crucial, no entanto, é se essa transformação configura uma força efetiva. Um ativismo que se fragmenta em “bolhas” e depende da dispersão digital, por mais persistente que seja em sua crítica, tem a capacidade de confrontar a avassaladora assimetria de poder imposta pelo complexo militar-industrial e pela propaganda estatal? A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte severamente contra a estatolatria e o perigo de um Estado que esmaga ou ignora os corpos intermediários da sociedade. Quando a voz plural do povo se reduz a um burburinho disperso, a máquina de guerra encontra menos obstáculos. Um mero “ativismo disperso” corre o risco de ser uma forma de catarse inócua, e não de resistência efetiva.

O problema, portanto, não reside na ausência de descontentamento, mas na falta de fortaleza para que essa insatisfação se transforme em ação organizada e consequente. A veracidade da guerra é sistematicamente obscurecida; as “guerras de drones” e a filtragem das notícias erguem um véu sobre o sofrimento, distanciando o cidadão da responsabilidade de sua nação. Pio XII, em sua aguda distinção entre “povo” e “massa”, já nos alertava: a massa é passiva, influenciável, incapaz de um juízo moral unificado e de uma vontade comum. O povo, ao contrário, tem consciência de si, de seus deveres e de seus destinos, e age em prol do bem da nação, mesmo diante de custos e pressões. A verdadeira liberdade, como ensinava Leão XIII, não é a anomia, mas a liberdade ordenada em vista de um bem.

É uma loucura lógica, como bem apontaria Chesterton, que uma sociedade desaprove majoritariamente suas guerras, mas permita que elas continuem, financiadas e executadas com pouca ou nenhuma oposição organizada. A sanidade cívica exige que a indignação moral se materialize em uma fortaleza coletiva que se erga contra a máquina de guerra, que serve a interesses particulares, e não ao bem comum. A vitalidade de um corpo social não se mede apenas por sua capacidade de produzir riquezas, mas pela sua aptidão em autogovernar-se, em resistir às tentações do poder desmedido, em zelar pela justiça e pela paz.

A questão central, que os americanos hoje enfrentam, não é a ausência de desaprovação, mas se lhes resta a fortaleza cívica e a veracidade para reconstituir uma muralha inabalável, capaz de traduzir a insatisfação dispersa numa força moral coesa e eficaz para a paz.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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