Os gritos de uma criança de três anos, sufocados pela dor implacável de um veneno e pela demora do socorro, ecoam muito além das paredes de um pronto-socorro distante. Bernardo de Lima Mendes não é apenas um número na estatística sombria dos acidentes por escorpião; ele é o rosto da vulnerabilidade extrema, a prova inconteste de que, por trás das “limitações estruturais” e dos “protocolos pactuados”, a vida humana clama por uma justiça que transcenda a burocracia. Seu pai descreveu a agonia, os vômitos repetidos e a sensação gélida de que o preparo da equipe era uma peça ausente no teatro da emergência.
A trágica cronologia dos fatos, com o soro antiescorpiônico aplicado mais de quatro horas após a picada em um menino cuja sobrevivência dependia de uma intervenção em até 90 minutos, impõe um juízo que não pode ser escamoteado. A polícia investiga a negligência, e é seu dever fazê-lo. Mas o caso de Bernardo nos força a olhar para a teia da saúde pública, não apenas para o fio rompido em Conchal, mas para a própria arquitetura dessa rede que, em tese, deveria proteger, mas que, na prática, apresenta buracos fatais. O Hospital Madre Vannini, sem UTI pediátrica e sem o soro salvador, afirma ter agido com “dedicação” dentro de suas “limitações”. A Santa Casa de Araras, a 26 quilômetros de distância, fez o que pôde quando o corpo de Bernardo já estava exausto pelas paradas cardíacas. Em algum ponto dessa cadeia, o princípio que deveria guiar toda a ação – a defesa da vida do mais fraco – foi desvirtuado.
Não se trata, aqui, de uma cruzada ingênua por “um soro em cada esquina”, ignorando as complexidades da gestão de recursos de saúde. A centralização de antivenenos em Pontos Estratégicos (PESAs), como Araras, é uma decisão de política pública que busca otimizar a expertise e a sustentabilidade. Ninguém razoável defende que cada pequena unidade municipal deva replicar uma UTI pediátrica ou manter estoques de soros para casos de baixíssima incidência. A verdadeira questão, no entanto, é o que São Tomás de Aquino chamaria de ordem dos bens: a vida de um menino de três anos está em uma hierarquia superior à mera conveniência administrativa ou à fria lógica de um mapa de distribuição que não garante a efetividade do socorro.
A falha não está necessariamente na existência de pontos estratégicos, mas na ineficácia da ponte que deveria conectar o acidentado ao ponto estratégico. Se a janela crítica de 90 minutos para o tratamento de uma criança é amplamente conhecida pela Secretaria Estadual de Saúde e pelo Instituto Butantan, então o sistema deve ser desenhado para garantir que, de cada rincão do estado, essa resposta possa ser acionada a tempo. Não basta ter o soro a 26 quilômetros se o tempo de percurso, a espera pela regulação da vaga e a falta de preparo no primeiro atendimento transformam a distância física em um abismo intransponível.
A virtude da justiça exige que o poder público não apenas estabeleça protocolos e redes de referência, mas que avalie sua efetividade real na ponta, especialmente para os mais vulneráveis. A dignidade da pessoa humana não é um conceito abstrato a ser manuseado em planilhas, mas a realidade concreta de uma criança que agoniza. Pio XII nos advertia contra a transformação do “povo” em “massa”, onde o indivíduo se dissolve em números e estatísticas. Bernardo foi reduzido à estatística, e o sistema que deveria protegê-lo parece ter naturalizado essa condição como um custo inevitável.
É preciso, portanto, que a investigação da Polícia Civil vá além da culpa individual e lance luz sobre as falhas sistêmicas que permitiram que a vida de Bernardo fosse ceifada. A secretária de Saúde de Conchal, ao propor um ofício para avaliar a possibilidade de ter o soro no município, toca em um ponto crucial: a necessidade de reavaliar, com honestidade e sem medo das implicações, se a arquitetura atual de defesa contra o veneno está à altura do desafio. A modernidade, em sua ânsia por eficiência, às vezes produz uma lógica que Chesterton chamaria de “loucura sã”, onde o mais racional se torna o mais desumano. Uma política de saúde pública verdadeiramente justa e solidária precisa costurar os buracos da rede, garantindo que nenhum cidadão, por sua localização ou idade, seja abandonado à fatalidade de uma picada esquecida pela máquina.
A verdadeira medida de uma sociedade está na forma como ela protege seus filhos. O lamento do pai de Bernardo não pode ser mais um eco passageiro; deve ser o chamado urgente para que a rede de cuidado, concebida para salvar, seja efetivamente capaz de abarcar a todos, antes que a lógica do “sistema” silencie mais uma vida inocente.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.