A visão de um estádio de futebol, em qualquer canto do Brasil, evoca mais que a imagem de uma partida. É um teatro de dramas coletivos, um arquivo vivo de memórias que passam de pais para filhos, um alicerce da vida social de uma comunidade. Em Mato Grosso do Sul, o Estádio Morenão carrega este peso simbólico, e a iniciativa de seu “resgate” e a modernização do futebol local, anunciada com pompa pelo governo, desperta a justa expectativa de que este patrimônio seja verdadeiramente devolvido ao povo. A cessão do estádio à administração estadual, com a promessa de vultosos investimentos públicos para sua reestruturação e posterior concessão à iniciativa privada, é um movimento que, em seu desenho, clama por um discernimento apurado entre o que se promete e o que de fato se edifica.
Não se contesta a necessidade de revitalizar a infraestrutura esportiva ou de fomentar o futebol no estado. O esporte, quando bem gerido, é escola de virtudes, forja o caráter e promove a integração social. Os investimentos estatais de R$ 9,47 milhões entre 2022 e 2025 e o plano de aplicar mais R$ 16,7 milhões no Morenão até 2028, são dados que atestam um engajamento governamental louvável na intenção. Contudo, a Doutrina Social da Igreja nos adverte sobre o uso dos bens públicos e a função social da propriedade, conceitos caros a Leão XIII. Um patrimônio edificado e mantido com recursos do contribuinte não pode se tornar, ao fim e ao cabo, um mero ativo a ser valorizado para a exploração de poucos, ainda que sob a bandeira da eficiência da gestão privada. A justiça social exige que o benefício do investimento público reverbere na coletividade que o sustenta, e não se concentre na rentabilidade de um futuro concessionário por 35 anos.
A preocupação legítima reside precisamente na ausência de garantias concretas sobre o acesso democrático ao Morenão após a concessão. Os pilares de "formação" e "governança" do projeto, embora mencionados, carecem de um detalhamento robusto. O fomento à base, o acesso de clubes menores e o apoio ao futebol feminino não podem ser notas de rodapé em um contrato de concessão que priorize apenas o lucro. Pio XI, em sua defesa da subsidiariedade, nos ensina que o Estado deve fortalecer os corpos intermediários da sociedade — neste caso, os clubes, as federações, as escolas de formação — e não substituí-los ou fragilizá-los com uma centralização ou privatização desequilibrada. A valorização de um grande estádio só faz sentido se ela servir como motor para a vitalidade de todo o ecossistema esportivo, capilarizado e acessível.
Os "estudos de viabilidade" para a concessão, a serem realizados até 2028, precisarão demonstrar, com a mais estrita veracidade, como harmonizarão a atratividade para o investidor privado com a manutenção do caráter público e social do estádio. A longa duração da concessão (35 anos) torna essa questão ainda mais crítica, pois moldará por gerações o acesso da população a um espaço de memória e potencial futuro esportivo. Quais serão os mecanismos contratuais para assegurar que clubes locais, times de base e a população em geral terão acesso prioritário e preços justos? Como se evitará que o "resgate" prometido se converta num estádio de elite, inacessível a quem mais precisa e a quem, com seus impostos, financiou a revitalização inicial?
A genuína modernização do futebol de Mato Grosso do Sul, para ser conforme à ordem justa, não pode se esgotar na reforma de um estádio e sua subsequente concessão. Ela deve ser um projeto sistêmico que fortaleça a base, promova a competição equitativa, garanta a transparência na gestão e assegure que o investimento público seja de fato um investimento no bem da cidade, com frutos visíveis para todos os seus habitantes. Se as intenções são as melhores, que se exijam os meios mais justos e transparentes.
Um patrimônio que renasce da memória não pode ser privatizado no porvir; deve florescer para o destino comum.
Fonte original: Opinião e Notícia
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.