O estrondo de um míssil Tomahawk sobre uma escola primária em Minab, Irã, no distante 28 de fevereiro de 2026, não é apenas um fato lamentável; é um estilhaço de moral que atravessa a consciência civilizada e rasga qualquer véu de justificação meramente geopolítica. As imagens de crianças e mestres ceifados por um projétil de guerra, ainda que o alvo primário fosse uma base militar adjacente, lançam sombras graves sobre a proporcionalidade da intervenção conjunta de Estados Unidos e Israel e exigem um escrutínio que vá além das simplificações da propaganda ou da retórica ideológica. A busca pela verdade, antes de ser um exercício acadêmico, é um imperativo de caridade para com os inocentes.
É cômodo, e perigoso, reduzir a complexidade de alianças e conflitos internacionais a um mero jogo de “influências desmedidas” ou a um “avanço imperialista” unidimensional. Tal visão, embora contendo uma preocupação legítima com a soberania e a justiça entre as nações, peca por um reducionismo ideológico que obscurece a realidade multifacetada das ameaças e responsabilidades. A obsessão por identificar um único “quem”, seja ele o “lobby” ou o “imperialista”, muitas vezes impede a reta razão de discernir os múltiplos vetores de interesse e segurança que informam as decisões de Estado, por mais falhas que estas sejam.
A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na reta razão e na lei natural, não desconhece a realidade da legítima defesa. São Tomás de Aquino, ao delinear os critérios da guerra justa, não ignorou a necessidade de uma nação se defender de uma agressão real. Na ausência de uma autoridade internacional eficaz para dirimir conflitos, a defesa de um povo e de seu território contra uma ameaça real e iminente não é apenas um direito, mas um dever de seus governantes, contanto que se observem os critérios da justiça: causa justa, intenção reta, último recurso, proporcionalidade e uma perspectiva razoável de sucesso. O Irã, embora frequentemente caricaturado pela mídia em narrativas despersonalizadas, não é um ator passivo. Sua projeção de poder assimétrica através de proxies regionais e a ambiguidade persistente de seu programa nuclear, mesmo que tenha sido declarado “obliterado” em algum momento, representam uma preocupação legítima de segurança para múltiplas nações na região, incluindo Israel e vários Estados sunitas.
Entretanto, Chesterton nos ensinaria que a verdade muitas vezes reside no paradoxo: os interesses de um Estado-nação, por mais que pareçam megalomaníacos a olhos externos – como a ideia de um “Grande Israel” –, podem ser internamente justificados pela percepção, por vezes aguda, de uma ameaça existencial. A prudência exige que se distinga a influência legítima – que todo país busca exercer no cenário internacional – da manipulação indevida ou da subordinação cega. A decisão de um presidente como Trump, cujas ações nem sempre se alinham com suas palavras, revela mais sobre a intrincada dança da política real e os interesses próprios da potência americana – em não proliferação e estabilidade regional – do que sobre uma subserviência absoluta a um único interesse externo. Os Estados Unidos, por suas próprias razões de segurança e economia global, possuem uma agenda que pode convergir com a de Israel, mas não se dissolve nela, nem é meramente um veículo para aspirações expansionistas alheias.
A tragédia da escola primária Shajareh Tayyiba, com o custo inaceitável de vidas civis, permanece, contudo, uma chaga moral. Mesmo uma ação que possa ser legítima em seu princípio de defesa perde sua integridade quando a proporcionalidade é esquecida e vidas inocentes são indiscriminadamente sacrificadas em nome de um objetivo estratégico. A dignidade da pessoa humana é o critério supremo, e nenhum cálculo geopolítico pode justificar a deliberada ou imprudente destruição de vidas inocentes. A retórica polarizada, que demoniza um lado e santifica o outro – seja a narrativa que enquadra o Irã como meros “fanáticos” ou a que reduz Israel a um “imperialista” puro – impede a reta razão e o diálogo construtivo, fomentando um ciclo vicioso de desconfiança e agressão que serve apenas aos arautos da discórdia.
A Caridade na Verdade exige que não se maquiem os custos humanos da guerra com a tinta de “interesses estratégicos” abstratos, nem se minimize a ameaça de regimes que usam a religião como véu para o poder e a desestabilização regional. A solução para a instabilidade do Oriente Médio não reside em acusações simplistas ou em intervenções unilaterais que ignoram a subsidiariedade e a solidariedade entre os povos, mas na busca de uma paz justa, que respeite a dignidade de cada pessoa e a soberania das nações. A verdadeira segurança e o bem comum duradouro não são construídos sobre escombros e corpos, mas sobre a justiça e a caridade.
A guerra, mesmo quando busca a paz, é a confissão trágica de que a verdade ainda não venceu; pois a real vitória não está em obliterar o inimigo, mas em convencer a alma de que a paz é o único paradoxo que vale a pena viver.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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