A miragem do declínio imperial, frequentemente projetada nas areias movediças do Oriente Médio, tenta vender reveses táticos como os últimos pregos no caixão de uma potência global. É uma narrativa sedutora para quem busca o fim de uma era, mas que desmorona sob o escrutínio da realidade multifacetada e dos princípios de uma análise justa. Há, sem dúvida, preocupações legítimas: a instabilidade na região do Estreito de Ormuz é uma chaga aberta que afeta as cadeias de suprimento globais e pressiona os mercados de energia, gerando custos econômicos e humanos inegáveis. Ameaças de escalada são reais, e a erosão da capacidade de dissuasão em um cenário de guerra assimétrica merece atenção séria. Mas a tentação de enxergar nisso o colapso de uma ordem é um vício de visão que deturpa os fatos.
A Tese que proclama uma “guerra contra o Irã” como “teste existencial” da unipolaridade americana ignora a vasta assimetria de poder que ainda prevalece. Enquanto ataques a bases e a interrupção de rotas marítimas são incidentes graves, eles não anulam a capacidade estratégica, econômica e diplomática dos Estados Unidos de realocar recursos e mobilizar alianças. Confundir a capacidade de infligir perturbações regionais com a capacidade de desafiar fundamentalmente a estrutura de poder global é um salto interpretativo que a boa análise, pautada pela veracidade, não pode permitir.
É preciso ter a humildade intelectual de reconhecer a complexidade do cenário, sem reduzi-lo a clichês de ascensão e queda. O professor G. K. Chesterton, com sua perspicácia peculiar, poderia apontar que o homem moderno, na ânsia de simplificar o mundo em esquemas ideológicos, muitas vezes desenha uma figura tão geométrica que perde a vivacidade do real. A ideia de que esta “guerra” é o sinal *definitivo* de um “declínio imperial” usa exemplos específicos de custos e ataques pontuais para tecer uma conclusão abrangente e irreversível, sem métricas objetivas que a sustentem. O verdadeiro problema não é a existência de desafios, mas a incapacidade de muitos analistas de discernir entre um revés tático e um colapso estratégico.
A analogia com a Crise de Suez de 1956, evocada para dar peso histórico à tese do declínio, é outro exemplo de simplificação excessiva. A transição de poder pós-colonial europeia não encontra eco direto no recalibramento geopolítico de hoje, que é muito mais gradual, complexo e passível de reversão. O mundo contemporâneo, como ensinava Pio XII, não é uma massa amorfa onde os eventos se atropelam sem sentido, mas um *povo* de nações com histórias e capacidades distintas, que exige uma *ordem moral pública* para sua convivência, alicerçada na verdade e não em narrativas ideologizadas. É preciso evitar a massificação da opinião que vê em cada percalço um sinal do apocalipse, impedindo uma análise ponderada das causas e efeitos reais.
A estratégia de “desgaste e exaustão” dos adversários de Washington, por mais eficaz que seja em certos aspectos, impõe custos humanos e econômicos igualmente insustentáveis ou até maiores às populações e aos atores que a praticam. A “guerra” atual não se distingue fundamentalmente de outras crises de alto custo e complexidade que os EUA já enfrentaram e das quais se adaptaram, redefinindo sua estratégia e influência. O que vemos, talvez, seja mais uma recalibração de poder e prioridades do que os “últimos pregos no caixão”.
A análise que confunde aspiração com realidade e ideologia com fato não serve ao bem da cidade global. A veracidade exige que se reconheçam os legítimos sofrimentos e as dificuldades reais dos povos afetados, ao mesmo tempo em que se rejeita a soberba de diagnósticos terminais sem base sólida. A humildade, por sua vez, nos lembra que a política internacional é um campo de forças em constante movimento, onde a história não se dobra a profecias lineares, mas se constrói na perseverança e na busca de uma justiça sempre precária. A tarefa de um juízo reto é decifrar o turbilhão dos acontecimentos sem se deixar cegar pela miragem de um crepúsculo anunciado.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.