A transição energética global, que promete um futuro de baixas emissões e tecnologias limpas, paradoxalmente acende um antigo debate sobre o papel do Brasil na economia mundial. No centro da discussão, o projeto Ferro Potiguar, com um investimento de R$ 2,5 bilhões da Fomento do Brasil Mineração, almeja transformar o Rio Grande do Norte em um novo polo exportador de minério de ferro. Os fatos são claros: o Brasil é um dos maiores produtores globais de minério de alta qualidade, insumo essencial para a produção de aço, vital para a infraestrutura de energia renovável — de parques eólicos a sistemas de mobilidade eletrificada. Há, sem dúvida, uma demanda crescente por esse material.
No entanto, por trás da retórica de “contribuição estratégica para a economia de baixo carbono”, ergue-se uma preocupação legítima e persistente: o risco de reforçar a velha “maldição das commodities”. O país, ao focar na exportação da matéria-prima, pode perpetuar-se como mero fornecedor de baixo valor agregado, transferindo o valor industrial, a tecnologia e os lucros da metalurgia avançada para nações que importam e beneficiam nosso minério. Enquanto isso, os custos socioambientais intrínsecos à mineração — uso de água, alteração de paisagem, gestão de resíduos e a pegada de carbono do processo extrativo e de transporte — recaem sobre as comunidades e ecossistemas locais, não raro com consequências desproporcionais e injustas.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a propriedade, mesmo dos recursos naturais, possui uma função social. O minério no solo brasileiro não é um bem a ser meramente exportado para o enriquecimento alheio, mas um patrimônio que deve servir ao desenvolvimento integral da nação e à prosperidade de seu povo. A justiça social, como insistentemente apontada por Pio XI, exige que os benefícios de qualquer empreendimento se distribuam equitativamente e que a nação construa sua própria ordem profissional e industrial, em vez de se limitar a escavar e entregar. Não se trata de demonizar a mineração, mas de ordenar sua prática para que o bem maior — o desenvolvimento humano digno e a soberania tecnológica — prevaleça sobre a simples balança comercial.
A glorificação de uma “contribuição verde” baseada na matriz elétrica nacional (85% renovável) é um dado positivo, mas pode beirar a “greenwashing” se não houver transparência sobre a pegada de carbono total, “da mina ao navio”, de cada etapa do processo. A loucura lógica das ideologias modernas, como diria Chesterton, é proclamar um progresso sem de fato enfrentar as contradições intrínsecas, disfarçando uma velha dependência sob um novo verniz. É preciso laboriosidade e responsabilidade para além da extração: exige-se a construção de “corpos intermediários” (Cap. 5 do Corpus Guide) que agreguem valor, eduquem mão de obra e inovem em solo nacional, transformando o minério em aço especial, com tecnologia e patentes brasileiras.
A diversificação de parceiros internacionais, seja no BRICS ou com outras nações, é uma estratégia geopolítica válida, mas a ela deve se somar a magnanimidade de uma visão que não se contenta em ser apenas um subalterno global. É um erro pensar que o Brasil não tem estrutura logística e industrial suficiente para verticalizar a produção de “aço verde” com base em seu minério de alta qualidade, sem antes fazer o esforço de construí-la. Uma verdadeira transição energética global e justa passa, necessariamente, por um modelo onde os países em desenvolvimento, detentores da matéria-prima, possam também se tornar atores relevantes na cadeia de valor, retendo benefícios e mitigando impactos com suas próprias capacidades. O solo fértil do Brasil não pode ser apenas um depósito de onde se retira o essencial, mas a base de onde brotam frutos de um desenvolvimento pleno, que se traduz em justiça duradoura para seu povo e em um futuro que não apenas abasteça, mas inspire o mundo.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.