Quando o solo de uma lavoura é medido apenas pela quantidade de sementes jogadas, sem atentar para a profundidade da terra, a qualidade dos adubos ou a diversidade da colheita, a celebração pode ser prematura. Minas Gerais, ufana, anuncia a abertura de mais de 22 mil empresas no primeiro bimestre de 2026, com uma leve redução de encerramentos. À primeira vista, é um número que convida à comemoração, um eco da confiança e do vigor do empreendedor mineiro. Mas a Doutrina Social da Igreja nos ensina que o desenvolvimento econômico não é um fim em si mesmo, nem se mede por estatísticas cruas; ele deve ser um meio para a prosperidade humana integral, para a justiça e para o florescimento da vida em comum.
O relatório da Junta Comercial do Estado, ainda que exalte a marca, revela um desequilíbrio notável: o setor de serviços abocanhou 76% das novas formalizações, enquanto a indústria, motor tradicional de agregação de valor e de empregos mais estáveis e qualificados, ficou com minguados 4%. Ora, uma economia que se apoia majoritariamente em serviços, especialmente aqueles de baixa barreira de entrada e, por vezes, de menor valor agregado, corre o risco de construir um castelo sobre areia movediça. A proliferação de pequenos negócios, embora demonstre resiliência individual, pode ser um sintoma de um mercado de trabalho formal restrito, empurrando muitos ao autoemprego por necessidade, não por oportunidade robusta. É a dignidade do trabalho que se curva a um modelo de subsistência, e não a uma prosperidade solidamente enraizada.
A narrativa oficial, entusiasmada com o avanço da “liberdade econômica”, convenientemente silencia sobre as lacunas que revelam a fragilidade desse tecido. A exclusão dos Microempreendedores Individuais (MEIs) da contagem, por exemplo, é um reducionismo que distorce a visão completa do dinamismo empreendedor. É como ignorar as pequenas ervas que forram o chão para celebrar apenas as árvores mais visíveis. Sem dados sobre a taxa de sobrevivência real dessas empresas, a média de empregos diretos gerados ou a remuneração desses postos de trabalho — especialmente no vasto setor de serviços — fica impossível aquilatar o impacto social e a real sustentabilidade desse crescimento. A veracidade exige transparência que transcenda a linguagem promocional e encare as complexidades do terreno.
O Papa Pio XI, em sua encíclica Quadragesimo Anno, sublinhava a importância da ordem profissional e da propriedade com função social, lembrando que a economia deve servir ao homem e à sociedade, não o inverso. O crescimento quantitativo de empresas é um bem quando está a serviço de uma ordem justa, quando promove a diversificação econômica, quando gera empregos de qualidade e distribui a riqueza de forma equitativa. A subsidiariedade, princípio basilar da Doutrina Social, exige que o Estado apoie e não sufoque as iniciativas locais, mas também que as comunidades floresçam em múltiplas vocações, e não se vejam forçadas a um funil de empreendedorismo de baixo impacto. Um Estado sábio não se contenta em contar aberturas; ele se preocupa com a qualidade do solo, com a saúde das raízes e com os frutos que, de fato, alimentam o povo.
Não basta festejar o número de novas sementes lançadas se o terreno é árido para um crescimento robusto e se a colheita carece de diversidade. Um desenvolvimento genuíno, aquele que visa à vida comum e à paz social, exige que o Estado, com juízo reto e discernimento político, promova um ambiente que não só facilite a formalização, mas que estimule a inovação, a industrialização e a formação de empregos de maior qualificação, garantindo que o labor de cada um contribua para uma riqueza que seja verdadeiramente partilhada. O desafio de Minas Gerais é o de transformar a retórica do volume em um plantio diversificado e próspero, onde o fruto do trabalho seja colhido com justiça e dignidade por todos.
Fonte original: ABCD Maior
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.