Quando as fundações de um edifício se movem ao sabor dos ventos, ao invés de ancorar a estrutura, não é o vento que está errado, mas a solidez do alicerce. A recente janela partidária no Brasil, que viu um festival de trocas de legendas por parte de figuras proeminentes da política nacional, mais do que um ajuste tático, revelou um sintoma preocupante da erosão da vida pública, transformando os partidos em meros balcões de negócios eleitorais. A lei permite a dança das cadeiras, é verdade, mas a reta razão questiona o que significa, para a polis, uma arquitetura tão volátil.
O que se viu nas últimas semanas foi um frenesi de realinhamentos: Caiado no PSD, Moro no PL, Tebet no PSB, Ciro Gomes no PSDB, Kátia Abreu no PT. Nomes de peso, com décadas de história em uma legenda, migrando para outra com a desenvoltura de quem troca de roupa, tudo sob o manto de uma legalidade que autoriza tais movimentos. Mais de 37 deputados federais mudaram de partido, com ganhos e perdas concentrados nas grandes legendas, evidenciando que a “janela” não é apenas uma fresta, mas uma porta giratória que redistribui influência e capital político, muitas vezes sem qualquer lastro programático consistente. O foco está nos cargos – governador, senador, presidente – e a sigla torna-se um meio instrumental, não um fim em si.
A Doutrina Social da Igreja, ao falar dos corpos intermediários, ensina que eles são essenciais para a vitalidade da sociedade, pois agregam interesses legítimos e articulam vontades em função do bem comum. Partidos políticos deveriam ser expressões orgânicas de ideologias e programas, veículos de princípios que unem cidadãos. Quando se tornam apenas veículos de ambições individuais, perdem sua função primordial. O que sobra, então, é um cenário de personalização da política, onde a fidelidade não é ao ideal, mas à oportunidade, e a lealdade é um luxo caro demais para o cálculo eleitoral. Esse esvaziamento da identidade partidária mina a capacidade dos eleitores de discernir, votar em plataformas coerentes e, mais importante, de cobrar justiça e veracidade de seus representantes.
A consequência mais grave recai sobre o eleitor, que se vê diante de um mandato que, conquistado sob uma bandeira, migra para outra sem qualquer nova validação popular. A representatividade, que deveria ser um espelho da vontade do povo, torna-se um prisma distorcido, onde o voto é desvirtuado antes mesmo de um novo pleito. Os políticos argumentam que a janela permite a “adaptação legítima” a novos cenários, evita a infidelidade partidária desregulada e dá dinamismo ao sistema. É um paradoxo, diria Chesterton, que se busque a ordem pela institutionalização da inconstância, tornando a infidelidade um evento esperado e legitimado. A flexibilidade, se não ordenada a um propósito maior, descamba para a fluidez vazia, para a loucura lógica de quem muda para manter tudo igual em essência: o poder por si mesmo.
O sistema multipartidário brasileiro necessita, sim, de mecanismos que permitam a reconfiguração de alianças e o alinhamento de convicções. No entanto, a licença não pode ser a justificação para a licença poética com a verdade e com a expectativa de coerência. Quando a ambição de um cargo é a única bússola, a ordem dos bens se inverte: o meio (o partido) engole o fim (o programa e o bem comum). Exige-se, da vida pública, uma renovação não apenas de nomes, mas de espírito, pautada pela honestidade dos propósitos e pela temperança na busca do poder.
O desafio reside em resgatar a função dos partidos como instituições que transcendem o jogo de interesses momentâneos. É preciso reconstruir a crença de que a política é um labor de edificação, e não um mercado persa de barganhas. A verdadeira liberdade política floresce onde há compromisso com princípios e um programa claro, e não onde a conveniência é a única divisa. A solidez de uma nação se mede pela consistência de suas instituições, e não pela agilidade com que seus arquitetos mudam de bancada.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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