A palavra, quando divorciada dos fatos e esvaziada de substância, pode se tornar um perigoso eco no deserto da política. Foi o que se ouviu da Alemanha, com o Chanceler Friedrich Merz a anunciar, como desejo sírio, o retorno massivo de 80% dos quase um milhão de asilados em três anos. O problema não é apenas a disputa imediata, onde o presidente interino da Síria, Ahmed Hussein al-Sharaa, prontamente o contradiz, negando tal pedido e vinculando qualquer retorno à “reconstrução da Síria”. O verdadeiro abismo mora na flagrante desconexão entre essa retórica e a realidade pétrea que se impõe.
Não se constrói um futuro sobre areia movediça. A Síria, depois de 15 anos de guerra civil e um terremoto devastador em 2023, não oferece sequer as condições mínimas para um retorno digno e voluntário de centenas de milhares de seus cidadãos. Especialistas, como a advogada Nahla Osman, atestam que “não existe uma única casa que ainda possa ser habitada” em muitas regiões, e que “mais de 80% das escolas na Síria estão destruídas”, sem mencionar a carência abissal de hospitais, medicamentos e segurança. Projetar a repatriação de 800 mil pessoas – um número que exigiria o envio de 730 indivíduos por dia – para tal cenário é uma quimera logística e uma afronta à caridade mais básica.
Ademais, a medida, sob o verniz de uma solução para a “questão migratória”, ignoraria o que tantos desses sírios já aportam à sociedade alemã. Não se trata de uma massa inerte, mas de um povo que, com honestidade e laboriosidade, se integrou, com 60% trabalhando em profissões essenciais, incluindo 6 mil médicos que sustentam hospitais alemães. Perdê-los, como alertam economistas, prejudicaria severamente o potencial de produção do país. Uma política que desconsidera a contribuição real e o potencial humano não é apenas insensata, mas injusta, ao tratar pessoas como meros números intercambiáveis, e não como indivíduos com dignidade intrínseca e direitos a zelar.
A verdadeira questão, portanto, não é se a Alemanha tem o direito de gerir suas fronteiras, mas como o faz, e se o faz com veracidade e justiça. Quando um chanceler recorre a declarações historicamente controversas sobre imigrantes, e sua proposta se alinha ao desejo de conter o avanço de partidos de ultradireita, a sombra da instrumentalização política se estende sobre o debate. Um juízo reto exige discernimento: separar a gestão migratória prudente – que pode, sim, buscar retornos voluntários e seguros quando as condições são dadas – do uso de vidas humanas como moeda de troca eleitoral. A pauta migratória é complexa demais para ser reduzida a um “jogo de quem disse o quê”, fomentando a insegurança de uma comunidade já vulnerável.
A doutrina social da Igreja, ao falar de subsidiariedade, nos recorda que as soluções devem florescer onde a vida acontece, respeitando a autonomia e a capacidade dos corpos sociais menores. No caso sírio, isso significa reconhecer que, sem a reconstrução da nação e a restauração da ordem, qualquer esforço de retorno massivo é uma imposição vã do alto, que esmaga os corpos vivos da sociedade em vez de fortalecê-los. A Alemanha, que acolheu tantos em seu momento de maior necessidade, tem a responsabilidade de garantir que o destino desses asilados seja tratado com a dignidade que lhes é devida, e não com a frieza de um cálculo estatístico ou a pressa de uma manobra política.
A dignidade da pessoa humana não é um adorno; é o alicerce de toda política justa. A verdadeira realeza social de Cristo se manifesta também na solicitude pelos mais frágeis, pelo que se carrega em comum e não se abandona o fraco. Diante do caos sírio, uma solução que se pretenda cristã não pode fechar os olhos à realidade devastada, nem se furtar à verdade sobre a capacidade de acolhimento e reintegração. É preciso, antes de tudo, reconstruir as bases de uma vida comum na Síria, para que os que foram forçados a fugir possam um dia, voluntariamente e com honra, voltar a erigir seus lares e suas vidas.
A verdadeira grandeza de uma nação não se mede pela altura de seus muros, mas pela solidez de seus alicerces morais e pela dignidade de sua acolhida.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.