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Merz: Alemanha Sem Bússola Entre Irã, Trump e Princípios

Friedrich Merz, chanceler alemão, oscila entre pragmatismo e princípios na crise do Irã e com Trump. A inconstância fragiliza a credibilidade da política externa alemã e a estabilidade global.

🟢 Análise

A política internacional, para ser virtuosa, exige mais do que a simples medição do vento; requer o leme firme da convicção e a proa voltada para um horizonte de princípios. Não é papel de um chanceler, por mais desafiador que seja o cenário, governar como uma biruta que ora aponta para o norte do pragmatismo mais rasteiro, ora para o sul de um moralismo tardio. O recente vaivém do chanceler alemão, Friedrich Merz, na gestão da crise iraniana e na relação com Donald Trump, revela não uma prudência estratégica, mas uma oscilação que fragiliza a credibilidade e a ordem moral pública.

Não se pode ignorar a legítima preocupação alemã com a estabilidade de sua economia. O receio de uma recessão aprofundada, a inflação crescente e o impacto da guerra nos preços do petróleo são realidades que afligem o lar de qualquer cidadão. A recusa em envolver-se militarmente em um conflito iniciado sem a devida consulta aos aliados é, em princípio, uma prerrogativa soberana e um reflexo da opinião pública. A apreensão sobre a ausência de um plano claro dos Estados Unidos e de Israel para o término da guerra no Irã é, sem dúvida, uma preocupação estratégica válida. Proteger as rotas de energia e comércio, como as do Estreito de Ormuz, é um imperativo econômico. Contudo, a virtude de uma nação não se mede apenas pela capacidade de proteger seu quinhão imediato, mas pela integridade com que navega nas águas turbulentas da geopolítica.

A sucessão de posições de Merz – de crítico contundente de Trump, passando por uma fase de aproximação “bajuladora” que culminou na expressa “compreensão” pelos ataques no Irã, até o abrupto recuo, dez dias depois, para a condenação e a recusa de participação militar – não denota um discernimento pautado pela veracidade, mas uma dança oportunista ao sabor das pressões. Quando um líder declara que não deseja “dar lições de direito internacional” a um aliado num dia, e no outro condena suas ações como “longe demais”, o que se revela não é a complexidade da diplomacia, mas a falta de fortaleza moral. Tal inconstância transforma a política externa num espelho da conveniência eleitoral, e não num instrumento da lei natural para a paz e a justiça entre as nações.

Segundo o ensinamento de Pio XII, um governo sábio distingue entre o “povo” – uma comunidade orgânica, livre e responsável, que se orienta por princípios – e a “massa” – uma aglomeração amorfa, facilmente manipulável pelos sentimentos e interesses imediatos. A estratégia de Merz, que tanto bajula quanto rechaça, parece mais voltada a aplacar a “massa” de eleitores preocupados com o custo do petróleo e o crescimento do AfD, do que a conduzir o “povo” alemão por um caminho coerente de princípios e responsabilidades. Essa política de espelhos, que tenta agradar a gregos e troianos, enfraquece a ordem moral pública e abre flancos para a demagogia populista, justamente o que a Alemanha menos precisa neste momento.

A questão crucial não é apenas se a Alemanha deve ou não participar de uma guerra, mas como ela pretende gerir as tensões de longo prazo com seus aliados, em particular com os Estados Unidos, seu principal parceiro. Uma política externa que reage exclusivamente a pressões domésticas imediatas e a ciclos eleitorais arrisca ser percebida como volátil, comprometendo a confiança transatlântica e a própria coerência da segurança europeia. O “pragmatismo” que se desliga de princípios firmes tem um custo elevado: o da credibilidade. Evitar ser um “free-rider” nas questões de segurança global, ou seja, beneficiar-se da ordem sem partilhar os fardos, exige mais do que a retração estratégica; exige um plano que concilie interesses nacionais legítimos com a solidariedade devida aos aliados.

A Alemanha enfrenta o desafio de reconciliar a manutenção das sanções contra a Rússia — uma postura alinhada com seus valores democráticos e a defesa da Ucrânia — com a pressão econômica crescente e a tentação de um Trump que poderia flexibilizar sua própria política energética. A verdadeira fortaleza de um Estado não reside em sua capacidade de oscilar rapidamente entre posições díspares, mas na firmeza com que sustenta seus compromissos e na clareza de seus propósitos, mesmo diante de tempestades políticas e econômicas.

O que se testemunha, portanto, não é o nascimento de uma nova e autônoma política externa alemã, mas a imagem de um barco que, sem bússola fixa, tenta se esquivar de cada vaga, mas perde o rumo para um porto seguro. A verdadeira autonomia se constrói sobre princípios inegociáveis e sobre a coragem de assumir uma posição, mesmo que impopular. O que se ganha em conveniência imediata, perde-se em dignidade e em firmeza de propósito, um custo que nenhuma nação, por mais rica que seja, pode arcar sem se empobrecer naquilo que é essencial.

Fonte original: ISTOÉ Independente

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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