A notícia de um investimento de R$ 57 bilhões do Mercado Livre no Brasil, com a promessa de 14 novos centros de distribuição e 10 mil empregos, irrompe na paisagem econômica como uma torrente. É, sem dúvida, um sinal de vigor empresarial e de confiança aparente no potencial brasileiro para o e-commerce. As cifras são imponentes, e a visão de uma logística cada vez mais capilarizada pode seduzir os olhos que buscam apenas o crescimento bruto. No entanto, é preciso mais do que a contagem de pacotes e de novos postos de trabalho para discernir o verdadeiro progresso. A correnteza que traz fartura também pode erodir as margens, desabrigando o que antes prosperava em solo firme.
Aqui, o dilema não é entre aceitar o desenvolvimento ou rechaçá-lo, mas sim entre um crescimento meramente quantitativo e um florescimento qualitativo que respeite a ordem dos bens e a dignidade humana. O que se anuncia como avanço esconde preocupações legítimas: a potencial asfixia de pequenos e médios varejistas, a precarização das relações de trabalho sob a pressão da produtividade algorítmica e as externalidades ambientais de uma logística que não cessa de se expandir. Ignorar estas arestas em nome do volume de negócios seria uma cegueira voluntária, uma capitulação do juízo diante do espetáculo do gigantismo.
Conforme a Doutrina Social da Igreja nos ensina, desde Leão XIII, a propriedade possui uma função social, e o mercado, por mais dinâmico que seja, não é um fim em si mesmo. Ele serve à pessoa humana e ao desenvolvimento integral da sociedade. O gigantismo de um único player, por mais eficiente que seja, levanta uma séria questão de justiça. Não se trata de demonizar o lucro ou a iniciativa privada, mas de questionar se a concentração de poder econômico, que dita termos a fornecedores e trabalhadores, não mina a livre concorrência e a capacidade de auto-organização dos corpos intermediários da sociedade. Uma economia sadia não se ergue sobre um oligopólio digital que descapitaliza o comércio local, mas sobre a propriedade difusa e a diversidade de iniciativas que alimentam a resiliência de um povo.
A promessa de 10 mil novos empregos, embora bem-vinda, exige uma análise para além do número. Qual a qualidade desses empregos? Quais as condições, a remuneração, a segurança e as perspectivas de carreira? O avanço da logística e do consumo rápido, impulsionado por plataformas com cada vez mais poder, pode gerar um frenesi técnico que desumaniza o trabalho e desconsidera o tempo devido ao salário familiar. A virtude da laboriosidade não se mede apenas pela produtividade, mas pela dignidade com que o trabalho é exercido e pelo justo retorno que oferece à vida dos trabalhadores e suas famílias. A temperança, neste contexto, não se aplica só ao consumo, mas à própria ambição empresarial que, sem limites morais, pode tornar-se devoradora.
A sanidade, para Chesterton, muitas vezes reside em ver o óbvio que o mundo moderno insiste em complicar ou ignorar. É um paradoxo que um modelo de “progresso” possa, ao mesmo tempo, gerar riqueza e empobrecimento, eficiência e desordem social. Não se pode celebrar o brilho do novo sem lamentar a sombra que ele projeta sobre as pequenas empresas, as ruas outrora vibrantes e a autonomia dos empreendedores. O zelo pela ordem social exige que os benefícios do crescimento sejam distribuídos de forma mais equitativa, fortalecendo o que está perto e não esmagando os corpos vivos da sociedade em nome de uma centralização irrefletida.
O verdadeiro serviço ao Brasil, neste momento, transcende o volume de qualquer investimento. Ele reside na capacidade de exigir que o avanço tecnológico e econômico se submeta à reta razão e aos princípios permanentes de uma sociedade justa. Isso implica em uma governança econômica que promova a solidariedade – carregando custos em comum para não abandonar o fraco – e que garanta a dignidade da pessoa humana em todas as suas atividades, desde o pequeno artesão até o gigante do e-commerce.
Não basta ver o lucro ou os empregos na superfície da água; é preciso sondar a profundidade da correnteza para assegurar que ela nutre, e não apenas arrasta, o futuro da nação.
Fonte original: O TEMPO
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.