O alívio que perpassou os corredores do mercado financeiro brasileiro nesta segunda-feira não passava de um teatro de sombras. Embora o dólar tenha recuado e a Bolsa se mantivesse num avanço tímido, a superfície da aparente calma apenas ocultava uma turbulência que se adensa. A euforia foi precificada sobre a notícia de uma “fonte ciente das propostas” de cessar-fogo no Oriente Médio, um frágil castelo de cartas erguido sobre a areia movediça de informações não confirmadas e, o que é mais grave, diretamente contraditórias. A veracidade, pedra angular de qualquer ordem social e econômica duradoura, foi, uma vez mais, a primeira vítima da pressa em antecipar um futuro que a realidade teima em desmentir.
O problema central reside precisamente na inversão da ordem dos bens: a esperança especulativa precede o escrutínio dos fatos. De um lado, o presidente Donald Trump lança um ultimato a Teerã, exigindo a reabertura do estratégico Estreito de Hormuz; de outro, uma autoridade iraniana descarta essa mesma reabertura em caso de trégua temporária. A contradição é gritante. Como pode o mercado precificar um acordo quando suas condições fundamentais são mutuamente excludentes? A autoridade legítima, em vez de pacificar com a clareza dos fatos, usa a retórica do “blefe”, criando uma névoa em que distinções essenciais se perdem, e a mídia responsável, conforme ensinava Pio XII, cede terreno ao boato e à projeção incerta.
As consequências dessa miopia não se restringem aos balanços de grandes investidores. A persistência das projeções inflacionárias para 2026 e 2027, com o IPCA ajustado para cima pela quarta semana consecutiva, é um sintoma claro de que a economia real sente o peso das incertezas geopolíticas, independentemente da euforia fugaz da Bolsa. O petróleo Brent acima dos US$ 110 o barril não é uma abstração; é o custo do transporte, da indústria, da energia, que se verte em preços mais altos na mesa de cada família. A expectativa de um corte da Selic, nesse cenário de pressões inflacionárias externas e internas, expõe uma aposta perigosa, descolada da reta ordenação que a prudência exige.
Parece que a sabedoria moderna, por vezes, inverte a bússola, como bem notaria Chesterton ao expor a loucura lógica das ideologias: a sanidade se encontra na crença no improvável, enquanto a cautela e o juízo reto são tidos por pessimismo estéril. O mercado, “estafado dessas falas e de nenhuma ação concreta”, ainda se move por elas, num ciclo vicioso que valoriza o espetáculo sobre a substância. O raciocínio tomista, que nos convida a distinguir as causas e a ordenar os bens, nos diria que não se constrói paz social sobre a ausência de verdade nem se garante a vida comum sobre a instabilidade de rumores.
O alerta de um “conflito prolongado e preços de petróleo altos por mais tempo” não é uma profecia apocalíptica, mas uma avaliação consequente dos fatos disponíveis. A dependência de “alguma sinalização um pouco mais clara” é a admissão de que a navegação se faz em mares revoltos, sem o farol da verdade que deveria guiar as decisões. Os bancos centrais, ao citarem a guerra em suas decisões, já reconhecem a gravidade do problema; seria desastroso que o sistema financeiro, num surto de otimismo artificial, resolvesse ignorar os sinais claros de um horizonte tempestuoso.
A dignidade da pessoa humana, cerne da Doutrina Social da Igreja, impõe que a busca pela paz não se faça com ultimatos vazios ou por meio de narrativas que distorcem a realidade, mas com a seriedade e a honestidade de quem compreende o impacto real de cada decisão. A paz não é a ausência de confronto, mas a tranquilidade da ordem justa. E essa ordem só se edifica quando a veracidade e a prudência orientam os atos dos homens, dos líderes e dos mercados.
A “calma” observada é, portanto, um perigoso convite à complacência. A estabilidade desejada para a vida comum, para a mesa do cidadão, não brota de “possibilidades” sem lastro. Ela exige que se encare a verdade, por mais dura que seja, e que se construa sobre a rocha dos fatos, não sobre as areias movediças da especulação irresponsável. A verdadeira paz, a estabilidade duradoura, não se erguem sobre a fumaça de ultimatos vazios ou na miragem de acordos desmentidos, mas na solidez intransigente dos fatos e na coragem de encarar a realidade com a veracidade que lhe é devida.
Fonte original: Bem Paraná
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.