Quando a memória de uma nação se torna palco, o roteiro pede mais que aplausos; exige a verdade integral, nua e crua, dos acontecimentos. A iniciativa do Ministério da Saúde de lançar o Memorial da Pandemia e reabrir seu Centro Cultural no Rio de Janeiro, acompanhada do Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid e da celebração de avanços na cobertura vacinal, são gestos que, em si, merecem reflexão. Prestar homenagem às mais de 700 mil vidas perdidas e reconhecer os esforços de jornalistas e profissionais de saúde é um dever de piedade e justiça, elementos cruciais para a recomposição de uma vida social ferida. Os dados que apontam para a reversão da queda vacinal em algumas frentes, com o aumento da imunização infantil e o sucesso da tríplice viral e HPV, são notícias que trazem um alento necessário, indicando um esforço louvável de resposta à desorganização sanitária recente.
Contudo, a virtude da veracidade exige mais do que a mera apresentação de fatos isolados, por mais positivos que sejam. O discurso oficial que acompanha tais lançamentos – que associa a pandemia a uma “crise de responsabilidade pública” e a um “negacionismo que custou vidas” – embora contenha sua parcela de verdade, corre o risco de cair num reducionismo perigoso. A calamidade da Covid-19 foi um fenômeno de vastas e intrincadas causas, com múltiplos atores e complexidades que transcendem uma simplória dicotomia entre “ciência” e “negacionismo”, ou entre uma gestão e outra. Desconsiderar a sobrecarga dos sistemas de saúde, as interrupções de rotinas e as dificuldades logísticas em um país de dimensões continentais é uma cegueira conveniente que impede uma compreensão profunda e honesta da história.
A memória, para ser uma força de unidade e aprendizado, não pode ser instrumentalizada como ferramenta de condenação sumária ou como pedestal para a exaltação exclusiva de uma corrente política. São Tomás de Aquino nos lembra que a justiça não se contenta em dar a cada um o que é seu no presente, mas também o que lhe é devido em termos de reconhecimento histórico e de uma narrativa que reflita a complexidade do real. Quando o Ministério da Saúde assume para si o monopólio da “defesa da ciência e da vida”, ou quando dados “preliminares” de recuperação vacinal são apresentados como prova definitiva de uma “reversão completa em três anos”, o que emerge não é o triunfo da ciência, mas a tentação da soberba ideológica. A humildade, aqui, seria a virtude que reconhece a contribuição contínua de instituições como Fiocruz e Unicamp, e de milhares de profissionais, independentemente das oscilações governamentais.
A construção de um memorial, com seus R$ 15 milhões de investimento no Centro Cultural, e a realização de uma exposição itinerante, são atos simbólicos importantes. Mas a ordem justa da vida social também clama por ações que enderecem as preocupações mais legítimas e concretas. A sustentabilidade dos aumentos vacinais depende de estratégias de longo prazo que transcendam a agenda de um governo, enfrentando a persistente hesitação popular e as disparidades regionais na infraestrutura do SUS. O Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid, embora essencial, precisa de garantias de implementação equitativa em municípios com recursos limitados, onde a estimativa de um quarto dos brasileiros com sintomas persistentes se traduz em um grito silencioso por atenção real.
A verdadeira reconstrução moral e cultural, de que fala a Doutrina Social da Igreja, edifica-se sobre alicerces de verdade e justiça, não sobre narrativas que polarizam ou simplificam. Uma nação aprende com seus erros e celebra suas conquistas não fabricando um inimigo monolítico ou um herói exclusivo, mas tecendo a memória com os fios da complexidade, da dor e do esforço comum. A reabertura de um centro cultural, longe de ser um mero palco, deveria ser um fórum para essa tessitura, onde o povo, e não uma massa teleguiada, pudesse reencontrar a si mesmo em sua história, com suas glórias e suas tragédias.
O compromisso com a vida, a ciência e a memória é inegociável, sim. Mas ele se manifesta plenamente quando a autoridade legítima governa não com a eloquência da autopromoção, mas com a discrição da verdade e a magnanimidade de uma visão que abraça a totalidade dos fatos e a dignidade de cada pessoa, para além de qualquer cálculo político. A paz social se constrói sobre uma memória que une, não sobre uma retórica que divide.
Fonte original: Sair do Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.