A safra de jovens médicos que o Brasil colhe anualmente, exuberante em números e aspirações, parece agora encalhar nos grandes centros urbanos, como um rio que transborda em um ponto enquanto secas afligem suas nascentes e foz. Relatos de recém-formados em Curitiba, Recife e Florianópolis revelam um quadro desolador: plantões disputados a toque de caixa em grupos de WhatsApp, expectativas financeiras frustradas e o amargo retorno à dependência familiar, tudo isso enquanto vastas regiões do país clamam por assistência. O paradoxo é cruel: uma nação com 2,98 médicos a cada mil habitantes – densidade superior à de EUA e Coreia do Sul – e que projeta chegar a 1,15 milhão de profissionais em 2035, vê seus talentos recém-saídos da universidade em peregrinação por vagas.
Não é justo, contudo, reduzir o fenômeno a uma simples “saturação do mercado”. A dor do jovem médico que clama “mando mensagem para todo mundo e não consigo trabalho” é real e merece ser ouvida com a caridade que distingue a legítima aflição do mero lamento. A realidade de plantões a R$ 700 por doze horas em algumas regiões, o mesmo valor de quinze anos atrás, ou a existência de “grupos de calotes” para mapear os maus pagadores, revelam uma precariedade inaceitável para uma profissão de tal importância. A promessa de uma vida conjugal e familiar estável, com filhos em boas escolas, torna a resistência à migração para o interior mais compreensível, expondo a tensão entre a expectativa individual e a necessidade social.
O cerne do problema reside menos na quantidade bruta de profissionais e mais na qualidade da formação, na distribuição e na arquitetura do sistema de saúde. O Brasil, de fato, ainda está abaixo da média de densidade da OCDE (3,70), e a superconcentração de médicos em metrópoles como São Paulo (6,8 por mil) e Belo Horizonte (9,98 por mil) mascara a carência crônica de outros quadrantes do território. O aumento de faculdades de medicina, de 143 para 448 em duas décadas, sem um planejamento correspondente para as vagas de residência médica, gerou um exército de generalistas sem a especialização que o mercado mais exigente busca. Hospitais de ponta, como o Santa Catarina, Oswaldo Cruz e Sírio-Libanês, não absorvem profissionais sem formação complementar, acentuando o gargalo.
A fragilidade da formação inicial, com 32% dos cursos reprovados no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) de 2025, é um sinal de alerta grave. Não é possível, sob o pretexto de democratizar o acesso à educação, negligenciar o bem interno da prática médica: a qualidade do cuidado. A ausência de uma verdadeira “ordem profissional”, nos moldes da Doutrina Social da Igreja, que ordene o mercado com justiça, subsidiariedade e honestidade, pavimenta o caminho para a exploração e a desorganização. A responsabilidade é difusa: do Ministério da Educação, que abriu cursos sem controle adequado; das universidades, que nem sempre formam com excelência; dos conselhos, que por vezes se prendem a discursos corporativos; e do próprio sistema de saúde, incapaz de planejar sua demanda e oferta de forma integrada.
O que se exige, portanto, é um juízo reto e ações concretas pautadas pela virtude da justiça. Justiça para o paciente, que merece acesso a um atendimento de qualidade, não importa onde viva. Justiça para o jovem médico, que investiu anos e recursos em sua formação e tem direito a uma remuneração digna e a condições de trabalho decentes, livre de calotes. E justiça para o sistema como um todo, que precisa de um planejamento que coordene a abertura de cursos com as vagas de residência e com as necessidades regionais de saúde. Isso implica incentivos para a interiorização, expansão qualificada das residências e uma supervisão rigorosa sobre a qualidade do ensino. O riso de Chesterton ressoaria ao ver a loucura lógica de um sistema que forma demais em abstrato, mas planeja de menos em concreto.
Não se trata de frear o avanço da medicina, mas de canalizar seus frutos com diligência e equidade. A verdadeira dignidade da profissão e a saúde da nação pedem que a colheita seja abundante não só em quantidade, mas em distribuição justa e qualidade inquestionável.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.