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Autonegligência Médica: A Tragédia do Cuidado de Si e a Cultura.

A morte trágica de um médico que recusou tratamento expõe a autonegligência profissional. Discute a cultura do 'super-herói' na medicina e o dever de zelar pela própria saúde.

🟢 Análise

A sentença da vida se escreve em cada escolha, e a morte de um jovem médico, embora envolta em compaixão, traz à tona um veredicto inquietante sobre o cuidado de si. Matheus Vieira Braga Mattos, cirurgião de apenas 31 anos, sucumbiu a um mal súbito em Bambuí, deixando para trás o vazio de uma vida promissora e o eco de uma história médica conhecida. Desde a infância, lidava com uma taquicardia supraventricular, que o levou a uma cirurgia de ablação aos 18 anos e retornou nos últimos quatro. Dias antes do trágico 1º de abril, a febre, os vômitos, a diarreia e as dores no corpo o abateram. Contudo, e este é o cerne que exige mais que luto, ele recusou atendimento médico, mesmo diante da insistência de uma enfermeira da Estratégia Saúde da Família.

Não há como não se tocar pela abnegação de sua esposa, também médica, Nathalia Marconi Campos, que iniciou a ressuscitação e a intubação em casa, numa luta desesperada pela vida do companheiro. Mas a narrativa que nos convida a enxergar nesse desfecho uma mera fatalidade, um destino selado pela doença preexistente e pela dedicação exaustiva, é insuficiente. Há uma verdade incômoda que se impõe: a morte do Dr. Matheus, para além da tragédia pessoal, é um espelho para a categoria médica e para a cultura do autocuidado, ou melhor, da autonegligência, que por vezes assola os que se dedicam a curar.

Aqui, a virtude da responsabilidade resplandece em seu aspecto mais fundamental. O médico, que detém o conhecimento mais íntimo da máquina humana e de seus limites, tem o dever primeiro de ser o guardião de sua própria saúde. Conhecer a complexidade do corpo e a urgência do tempo não deveria imunizar contra a prudência, mas sim impulsionar a uma temperança no trabalho e a uma humildade em reconhecer a própria fragilidade. Recusar o conselho de um profissional, mesmo que de hierarquia diferente, quando os sintomas gritam por socorro, não é heroísmo; é um paradoxo que beira a imprudência, para não dizer soberba.

Essa tragédia nos força a olhar para a ordem dos bens. A dedicação ao próximo é um preceito da caridade e da justiça profissional, mas não pode anular o bem primário da própria vida e saúde. Como São Tomás de Aquino nos ensina, a caridade, que se ordena a Deus e ao próximo, começa pelo reto amor de si, que inclui a preservação da própria existência como base para qualquer outra ação. É um desequilíbrio na hierarquia dos deveres, onde o profissional de saúde, imbuído da missão de cuidar, esquece que seu corpo é o primeiro templo a ser zelado.

A cultura do “super-herói” na medicina, que exige sacrifícios ilimitados e faz da resiliência uma arma contra o próprio bem-estar, contribui para essa desordem. A assimetria de poder, onde o médico pode desconsiderar o alerta da enfermeira, e a falta de programas institucionais robustos de autocuidado para os profissionais de saúde, agravam o quadro. Não se pode pedir dedicação extrema sem oferecer as bases para que essa dedicação seja sustentável. Um sistema que exige o limite e não protege a base da vida de seus agentes é um sistema que, a longo prazo, se autoflagela.

Chesterton, com sua perspicácia para os paradoxos modernos, riria amargamente da sanidade invertida: o homem que se especializa em consertar o mundo, mas se recusa a cuidar de sua própria casa, que é seu corpo e sua alma. A lógica da autonegligência, especialmente em quem possui o conhecimento para agir, é a mais ilógica das loucuras. Não se trata de culpar o falecido, mas de extrair, sem sentimentalismo fácil, lições cruciais para a comunidade que ele servia.

Que o silêncio que se fez em Bambuí não seja apenas o de um luto compreensível, mas o convite a um exame de consciência, para que a medicina que se dedica a curar o mundo não se esqueça de honrar o templo da própria vida.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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