A arte de governar, especialmente no cenário intrincado da política externa, não pode ser reduzida a um jogo de intuições ou a um ato de força bruta. Exige, antes de tudo, uma inteligência estratégica alicerçada na verdade dos fatos e na previsão das consequências, uma bússola moral que oriente a ação do Estado para a paz justa e a ordem. É nesse palco de riscos calculados e, por vezes, imprudências fatais que John Mearsheimer, com a acuidade de um cirurgião que diagnostica uma gangrena, apresenta um cenário de guerra entre Estados Unidos e Irã que é, para dizer o mínimo, desolador. Não um conflito qualquer, mas um “atoleiro sem saída”, onde a superpotência americana se encontra numa encruzilhada estratégica que ele considera já perdida sob a gestão de Donald Trump.
Segundo o cientista político, o Irã, longe de ser um adversário facilmente subjugável, “detém quase todas as cartas” em uma guerra prolongada, desafiando a premissa de uma vitória rápida e limpa que alguns pareciam vender a Washington. A análise não se detém apenas na capacidade de resistência militar iraniana ou na vulnerabilidade das bases americanas na região, mas se estende às “consequências catastróficas” sobre o fluxo de energia no Estreito de Ormuz, uma rota vital que poderia “destruir a economia internacional”. Mais do que o retrato sombrio de um conflito, Mearsheimer aponta o dedo para o método de decisão do presidente, que despreza instituições estabelecidas como o Pentágono e a CIA, preferindo o conselho de um círculo íntimo de indivíduos sem a devida qualificação.
A preocupação com os custos humanos e econômicos de uma escalada de tal magnitude no Oriente Médio não é alarmismo, mas um imperativo da justiça e da reta razão. A possibilidade de uma desestabilização global significativa devido à interrupção do comércio marítimo é uma ameaça real ao sustento de milhões e à paz social. A denúncia de que decisões de peso são tomadas à margem da inteligência e experiência institucional, com base em palpiteiros, revela uma falha grave na gestão da coisa pública, um desrespeito à autoridade legítima que não reside na pessoa, mas no ofício ordenado ao bem da cidade.
É preciso reconhecer que a política externa de uma potência como os Estados Unidos é um emaranhado de interesses: segurança nacional, hegemonia regional, contenção nuclear, economia e, sim, a influência de grupos de interesse. Reduzi-la a um único vetor, como a influência de um lobby específico, por mais poderosa que seja, incorre no risco de um reducionismo causal que obscurece a complexidade do real. Ainda assim, a crítica à subserviência a interesses particularistas em detrimento do interesse nacional mais amplo, e a advertência contra a soberba de ignorar os avisos de seus próprios órgãos de Estado, são pontos inegáveis. A tentação de crer numa “vitória rápida e limpa”, vendida por quem tem a ganhar com a escalada, é um sintoma da falta de humildade diante da intrincada teia de causas e efeitos da guerra. É uma espécie de loucura lógica imaginar que a realidade pode ser forçada a se curvar a uma vontade simplória, ignorando a tenacidade dos povos e a brutalidade inerente ao conflito armado.
Aqui, a Doutrina Social da Igreja oferece um balizamento essencial. A busca pela paz não é uma utopia sentimental, mas um desígnio da justiça e da caridade política. Leão XIII já advertia sobre os limites do poder estatal, que deve servir à liberdade ordenada e à família como sociedade primeira, e não se converter em agente de destruição sem freios. Pio XI criticava a estatolatria, a adoração do Estado como fim em si, desconsiderando a multiplicidade de corpos intermediários e a consulta prudente. E Pio XII diferenciava o povo, agente consciente de seu destino, da massa, manipulável e irracional. Quando um governo despreza suas instituições permanentes, esvazia o povo de sua capacidade de discernimento e o reduz a uma massa de espectadores diante de decisões tomadas por um “círculo íntimo” de poucos. A subsidiariedade, princípio que busca fortalecer o que está perto e não esmagar os corpos vivos da sociedade, aplica-se aqui à necessidade de respeitar as estruturas de saber e aconselhamento dentro do próprio Estado, evitando a centralização de decisões que deveriam ser fruto de um processo mais amplo e qualificado.
As consequências de uma aventura militar impensada, alertadas por Mearsheimer como algo “muito pior que Afeganistão, muito pior que Iraque”, não são meras conjecturas teóricas. São o custo real de uma diplomacia errática e de uma estratégia que confunde bravata com força. A verdadeira força de uma nação reside não na sua capacidade de iniciar guerras, mas na sua sabedoria em evitá-las, na sua fortaleza em resistir às pressões para o conflito injusto e na sua veracidade em apresentar ao mundo a real dimensão dos seus objetivos e dos riscos envolvidos. A “rendição incondicional” que Mearsheimer vislumbra para os EUA não é apenas militar, mas moral, uma falha em governar com base na reta razão e no princípio de justiça para todos.
A análise de Mearsheimer, ainda que carregada de seu próprio ponto de vista, serve como um espelho incômodo para a irresponsabilidade estratégica. Não se trata de endossar profecias catastróficas, mas de reconhecer a urgência de uma ordem justa que se constrói não pelo capricho de poucos, mas pela prudência coletiva e pelo respeito aos limites do poder. A paz, fruto da justiça e da caridade política, não é o silêncio dos cemitérios, mas a vida florescendo sob o império da lei moral.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.