Sessenta anos é um marco para qualquer edificação, e mais ainda para uma casa política que se pretende o esteio da moderação e da longevidade nacional. O MDB, que se prepara para celebrar seis décadas, é um monumento à adaptabilidade. Nascido da oposição “consentida” à ditadura, tornou-se o guardião de uma certa ordem, agregando sob seu teto figuras díspares – dos egressos do trabalhismo à direita moderada – e se orgulha de sua vocação municipalista e de ser a âncora que impede o país de navegar em águas demasiado radicais.
No entanto, essa longevidade tem um preço, e a própria força de sua plasticidade ideológica levanta um questionamento incômodo: o que exatamente este partido representa, para além da sua própria sobrevivência institucional? Sua história recente, com a participação em governos de matizes tão distintos – de Fernando Henrique a Lula, passando por Dilma e Temer – e a recente oscilação entre apoios a polos diametralmente opostos, do atual presidente a figuras da direita radical, não depõe contra a clareza mínima que se espera de um ator político?
A Doutrina Social da Igreja nos adverte sobre o perigo da “estatolatria” – quando o Estado, ou, por extensão, a máquina partidária, se torna um fim em si mesmo, descolado de um projeto nacional que sirva ao bem comum. Um partido que se define pela ausência de definições, que flutua conforme a maré dos cargos e da barganha, trai a noção de representação política. Ele transforma o povo em massa de manobra, desprovida de um guia claro, e substitui a liberdade ordenada, que exige escolhas nítidas e responsáveis, por um vale-tudo que confunde conveniência com virtude cívica.
O MDB argumenta que sua flexibilidade é um ativo, um amortecedor contra radicalismos, uma ponte necessária num país polarizado. Mas essa defesa, embora sedutora em um cenário de alta tensão, corre o risco de justificar a ausência de princípios. Quando a “moderação” se converte em ausência de compromisso, ela não constrói consenso; dilui a responsabilidade. Não é o mesmo que a magnanimidade que busca a unidade em torno de fins nobres, mas uma espécie de temperança que abdica da própria temperança, aceitando qualquer dieta para permanecer à mesa.
A política, para ser virtuosa, precisa de honestidade intelectual e de justiça na representação. Os cidadãos merecem saber, com clareza, qual o projeto de nação que seus representantes endossam. O municipalismo, por exemplo, é um valor crucial que reforça a subsidiariedade – a ideia de que o poder deve estar o mais próximo possível do cidadão. Contudo, um partido não pode viver apenas do localismo, sem oferecer um arcabouço sólido para o país. Precisa de um eixo programático que, como a fundação de uma igreja, resista aos ventos, e não apenas de uma cobertura que se adapta a todas as intempéries, sem nunca ser dela mesma.
A verdadeira força de um partido não se mede por quantos invernos políticos ele sobreviveu, mas pela clareza do projeto que ele defende em cada primavera.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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