Havia uma casa devastada, seus telhados perfurados, suas paredes pichadas e seus jardins convertidos em entulho. A tarefa de reerguê-la, de fazê-la novamente habitável e bela, parecia hercúlea. Pois bem, os fatos mostram que a gestão de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente foi capaz de tapar os buracos maiores, limpar a sujeira mais gritante e iniciar uma reconstrução necessária. Os números de queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, o fortalecimento das fiscalizações e a captação de bilhões para fundos climáticos são testemunhos inegáveis de um esforço meritório de restauração, que arrancou a agenda ambiental do precipício onde se encontrava.
Contudo, se a estrutura da casa agora parece mais firme, resta saber se os alicerces foram devidamente reforçados para o futuro. As objeções legítimas apontam para uma verdade incômoda: o Brasil, embora celebre a recuperação de indicadores ambientais, parece resistir a uma verdadeira conversão ecológica. A “mobilização” de bilhões em fundos é um ponto positivo, mas a dúvida sobre sua efetiva aplicação na ponta, as dificuldades de acesso para municípios e comunidades, e a própria ambivalência do governo central em relação à transição energética – evidenciada pela insistência na exploração da Margem Equatorial – mostram que a agenda ambiental ainda é tratada como um departamento adjunto, e não como o eixo vital da política nacional.
Aqui, o ensinamento de Pio XI sobre a justiça social e a subsidiariedade se faz premente. Não basta ao Estado centralizar a boa vontade e os recursos; é preciso garantir que as estruturas intermediárias – os municípios, as comunidades locais, os corpos sociais vivos – tenham a capacidade e os meios para participar ativamente da gestão ambiental. Quando o Congresso Nacional derruba vetos presidenciais que visavam proteger um licenciamento ambiental mais robusto, ele não apenas fragiliza a pasta ministerial, mas revela uma profunda incompreensão do que significa a ordenação justa dos bens. A defesa dos interesses econômicos particulares sobrepõe-se à vida comum, ao destino compartilhado de um povo que depende da integridade de sua criação.
A virtude da justiça não se resume a distribuir encargos ou punir ilícitos, mas a assegurar que cada bem seja tratado segundo sua dignidade, e que a criação, dom de Deus, seja custodiada com reverência. A ausência de uma Autoridade Climática, capaz de transversalizar a agenda ambiental por todas as pastas, é uma falha de justiça estrutural. A pauta verde, ao invés de permear as decisões de investimento e infraestrutura, continua à mercê de negociações e pressões políticas, muitas vezes cedendo àqueles que, movidos por uma espécie de loucura lógica do progresso irrestrito, ignoram os limites da realidade natural. Como Chesterton advertiria, a sanidade não está em seguir cegamente a expansão, mas em reconhecer a forma da casa, o propósito dos cômodos e a fragilidade do teto.
A resiliência da ministra é um fato, mas a fortaleza que se espera não é apenas de uma pessoa, mas da própria ordem institucional. A grande questão é se o sistema brasileiro está edificado sobre alicerces tão frágeis que a agenda ambiental só avança na presença de lideranças carismáticas ou diante de uma devastação ostensiva. Se a casa foi limpa e remendada, a ausência de uma fundação sólida para uma transição econômica verdadeiramente sustentável e justa deixa a estrutura à mercê de novas tempestades.
Em suma, a gestão de Marina Silva representou um necessário movimento de restauro, um freio corajoso à demolição ambiental. Mas a missão de transformar o Brasil em uma nação onde a ecologia integral seja o próprio coração do projeto nacional, e não seu apêndice, permanece largamente inconclusiva. A verdadeira justiça para o ambiente e para as futuras gerações exige uma conversão mais profunda, que eleve a criação ao seu devido lugar na hierarquia dos bens, longe das barganhas efêmeras do poder.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.