A terra do Acre, rica em histórias de luta e de florescimento, agora se prepara para uma nova colheita com a ascensão de Mailza Assis ao governo. Há, sem dúvida, uma dimensão de legítima celebração no fato de uma segunda mulher ocupar o mais alto cargo executivo do estado, seguindo os passos de pioneiras como Iolanda Fleming e Laélia Alcântara. Mas a verdadeira medida do progresso, como a retidão de um plantio, não se assenta apenas na visibilidade da representação, mas na substância da governança e na qualidade do fruto que se espera colher.
O percurso de Iolanda Fleming, primeira governadora de um estado brasileiro, com sua luta pela Delegacia da Mulher e pela inclusão feminina na Polícia Militar, ou o de Laélia Alcântara, primeira mulher negra a ser senadora no país, são capítulos que atestam a capacidade e a força das mulheres na construção política e social. São exemplos que inspiram e que devem, sem dúvida, ser reconhecidos e honrados. A ascensão de Mailza Assis insere-se nesse fluxo, e o reconhecimento de sua trajetória e de sua aptidão para o cargo é um direito que não pode ser diminuído.
Contudo, é preciso diferenciar a celebração simbólica da exigência de um governo justo e eficaz. Há uma preocupação legítima em não reduzir o avanço da mulher na política a uma mera troca de rostos, enquanto as estruturas de poder e as políticas continuam as mesmas. A ênfase na “continuidade do plano de governo” do antecessor, somada à retórica da “sensibilidade feminina” e do “cuidado com as pessoas”, pode, por vezes, resvalar em uma essencialização do papel da mulher, onde o gênero se torna uma garantia de virtudes que, na verdade, devem ser atributos universais de qualquer governante. Um governo, para ser bom, precisa de competência, não de sentimentos abstratos.
Segundo a Doutrina Social da Igreja, o critério fundamental para a avaliação da autoridade política é a promoção da justiça e do bem comum de todos os cidadãos, sem distinção. A dignidade da pessoa humana exige que a governança se volte para o atendimento das necessidades reais do povo, com programas concretos e resultados mensuráveis. A mera representação de gênero, por mais bem-vinda que seja, não substitui a justiça distributiva, a honestidade na gestão dos recursos públicos e a laboriosidade na implementação de políticas públicas que combatam as desigualdades estruturais. O que Pio XI chamava de “justiça social” requer não apenas bons sentimentos, mas uma ordem objetiva que garanta a todos o acesso aos bens necessários à vida digna.
Quando se fala em “cuidado” e “inclusão” como marcas da liderança feminina, é imperativo que essas palavras se traduzam em ações transparentes e auditáveis. Quais serão os indicadores concretos de que a nova gestão, para além da representação, promoverá uma redução tangível das desigualdades para as mulheres mais vulneráveis do Acre? Como a “continuidade” do plano de governo será conciliada com um “olhar diferenciado” para as pautas femininas? O povo não é uma massa passiva a ser embalada por discursos, mas uma comunidade viva que anseia por soluções reais e por governantes que, como ensinava Pio XII, saibam distinguir o verdadeiro povo da massa amorfa, servindo o primeiro com retidão e responsabilidade.
A ascensão de Mailza Assis é um fato a ser registrado. Que seja, então, uma oportunidade para que o Acre demonstre que a participação feminina na política pode ir além do simbolismo e ancorar-se na labuta concreta do governo reto, que serve o bem da cidade e não a ideologia do momento. O verdadeiro progresso político não se mede pelo gênero de quem ocupa o cargo, mas pela reta ordenação da sociedade segundo a justiça e a veracidade, pelo serviço efetivo aos mais vulneráveis e pela construção de um futuro que seja bom para todos.
Não basta celebrar o plantio de uma nova semente; é preciso zelar pela irrigação e pela terra, para que o fruto seja de justiça, veracidade e bem-estar para todo o povo.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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