A mesa de trabalho de um governante não se move apenas por simbologias, por mais justas e históricas que estas sejam. É um palco de decisões cruas, de sacrifícios reais e de um labor incessante que, muitas vezes, acontece longe dos holofotes. A ascensão de Mailza Assis ao governo do Acre, sucedendo a Iolanda Fleming como líder feminina no estado, é um fato que merece ser notado em sua dimensão histórica. A memória de Iolanda, pioneira a construir uma delegacia da mulher e a abrir as portas da Polícia Militar a elas, e de Laélia Alcântara, a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Senado, são marcos que, para O Polemista Católico, apontam para a justa valorização da mulher na vida pública, reconhecendo seu papel insubstituível na edificação da sociedade.
Contudo, é preciso discernir o que é legítimo avanço da participação feminina do que é um reducionismo perigoso. A tese de que a presença feminina em cargos de poder é, por si só, uma garantia de “sensibilidade” ou de um governo intrinsecamente “mais cuidadoso” com as pessoas resvala no essencialismo. A experiência nos ensina que a competência administrativa, a probidade e a reta ordenação dos meios aos fins não são monopólios de um gênero, mas frutos de virtudes morais e intelectuais cultivadas pela pessoa, seja ela homem ou mulher. A verdadeira sensibilidade não é um atributo biológico, mas uma caridade atuante, que se manifesta em políticas públicas concretas e eficazes para os mais vulneráveis.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, tem insistido na primazia do trabalho, da responsabilidade e da justiça social sobre o mero simbolismo ou as abstrações ideológicas. Um governo que “cuida das pessoas” deve apresentar planos claros para o salário familiar, para a propriedade difusa, para o fortalecimento dos corpos intermediários – das associações de bairro às cooperativas – e para uma educação que forme em virtudes, não apenas em habilidades técnicas. A promoção de programas como “Mães da Ciência” ou “Cozinha Solidária” são louváveis em sua intenção, mas o verdadeiro teste está na capacidade de enfrentar as raízes estruturais da pobreza e da desigualdade, com transparência e resultados mensuráveis.
A questão da legitimidade também impõe um juízo. A governadora assume o cargo por sucessão, em um movimento político que permite ao titular disputar novas eleições. Embora constitucionalmente legítima, essa circunstância pede que a líder demonstre com ainda mais vigor a autonomia de sua gestão e a dedicação ao destino do povo, superando a imagem de “braço direito” para encarnar, de fato, a autoridade soberana do estado. O discurso de “continuidade” pode ser uma força estabilizadora, mas não pode se traduzir em estagnação ou na manutenção de práticas que não se adaptam aos desafios emergentes do Acre – sejam eles econômicos, sociais ou ambientais.
O perigo reside, como Chesterton nos alertaria em seu paradoxo sobre a modernidade, em confundir a reforma com a destruição de verdades elementares. A celebração da mulher na política é justa quando ela se dá em função de sua capacidade de servir e de edificar a ordem social, não como um fetiche ideológico que, por vezes, esconde a ausência de um programa robusto e de uma verdadeira autonomia. A veracidade exige que a análise se debruce sobre as políticas específicas, os resultados alcançados e a radical responsabilidade, e não sobre a mera retórica do “cuidado” ou da “inclusão”.
É preciso questionar quais são as vozes que, nesta narrativa celebratória, ficam silenciadas. Quais os desafios socioeconômicos e ambientais do Acre que exigem um discernimento político aguçado e decisões corajosas? Como a nova governadora planeja conciliar a sensibilidade que promete com a dureza das escolhas orçamentárias e das demandas por segurança e desenvolvimento? A governança não é uma peça de teatro onde aplaudimos o elenco, mas um canteiro de obras onde cada tijolo deve ser assentado com justiça e firmeza.
Que a história das mulheres pioneiras no Acre inspire a nova governadora não apenas à ocupação de um cargo, mas a um serviço que seja marcado pela laboriosidade na construção do bem comum e pela veracidade em cada uma de suas ações. Somente assim a representatividade feminina transcenderá o símbolo e se tornará substância viva de uma vida política mais justa e fraterna. A mulher é, de fato, um pilar da família e da sociedade, mas sua contribuição plena se realiza na totalidade de sua pessoa e de suas virtudes, não na redução a um rótulo sentimental. O governo de um estado é uma herança de gerações, e a melhor forma de honrá-la é edificando um futuro com as mãos no arado e o coração na verdade.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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