Quando uma nova mão assume o leme de um estado, a expectativa é que a bússola aponte para um horizonte de clareza e de serviço. No Acre, a posse de Mailza Assis como governadora, sucedendo Gladson Camelí, é apresentada com o brilho de um marco histórico para a representação feminina. E, de fato, o percurso de mulheres como Iolanda Fleming e Laélia Alcântara no cenário político acreano é digno de nota e de reverência, pois cada uma, a seu modo, rompeu barreiras e abriu caminhos para a ação feminina na vida pública.
Mas o católico, que preza a realidade dos fatos e a `veracidade` como alicerces de qualquer juízo moral, vê-se interpelado não apenas pela celebração, mas pela base sobre a qual ela se ergue. A notícia que veicula o evento, com sua data de publicação futura e um título completamente alheio ao conteúdo, macula a própria matéria-prima do discurso. Não se pode edificar um discernimento sólido sobre areias movediças de uma informação duvidosa, pois a `honestidade` intelectual é a primeira virtude da comunicação, e sem ela, a credibilidade se esvai.
Para além da questão factual, que é grave, convém discernir a natureza da assunção do cargo. A celebração da ascensão de uma mulher ao governo, por mais simbolicamente potente que seja, ganha contornos distintos quando essa ascensão não decorre de um pleito eleitoral direto para o cargo de chefe do executivo, mas de uma sucessão política. Gladson Camelí se afasta para disputar eleições, e Mailza Assis assume como sua vice. Embora constitucionalmente legítima, tal dinâmica levanta questões sobre a `justiça` da representatividade popular para a chefia daquela gestão em particular. O voto dado à chapa governista elegeu um governador e seu vice; a alteração daquele arranjo, mesmo que por permissão legal, é algo que o povo de um estado deve ver e entender com total transparência.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente nas encíclicas de Leão XIII e Pio XI, ensina-nos sobre a `liberdade ordenada` e o princípio da `subsidiariedade`. A autoridade deve emanar da forma mais próxima e legítima possível do povo, e as estruturas de poder não devem esmagar a agência dos corpos intermediários e da vontade popular. Quando uma sucessão se dá em função de interesses eleitorais, e não de uma eleição direta para a chefia, a narrativa de “continuidade” e a caracterização da vice como “braço direito” do titular que se afasta podem, inadvertidamente, obscurecer a autonomia da nova governante e a plena `legitimidade` de um mandato próprio, gerando uma assimetria de poder.
A mera presença feminina em um alto cargo, embora um passo visível, não é por si só garantia de uma gestão que se paute por maior `sensibilidade` ou `inclusão`. Tais qualidades, se genuínas, devem se traduzir em políticas públicas concretas, em planos de governo que mostrem uma visão e uma agenda próprias, e não apenas na continuidade de um programa previamente estabelecido. Reduzir a complexidade da governança à “sensibilidade feminina” é um sentimentalismo que pode esvaziar a `responsabilidade` individual e a `laboriosidade` que se exige de qualquer governante, independentemente de gênero.
O verdadeiro avanço na política não reside apenas na contagem de rostos em cadeiras de poder, mas na `veracidade` do processo, na `justiça` da representação e na `integridade` do serviço público. A sucessão de Mailza Assis, para ser plenamente celebrada como um marco, demanda clareza sobre a natureza e a duração de seu mandato, bem como a manifestação inequívoca de sua própria agenda e visão para o Acre.
O destino de um estado, como a construção de uma catedral, não se ergue sobre areias movediças de datas falsas ou sobre discursos que vendem gestos por realidades. Exige alicerces de `verdade`, colunas de `justiça` e a argamassa de um serviço `honesto` ao bem do povo.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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