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Lula, Sul Global: Da Culpa Externa à Fome Interna

A fala de Lula na CELAC-África denuncia injustiças globais. O artigo pondera: culpar só o externo ignora má governança e corrupção no Sul Global. Fome e justiça exigem responsabilidade interna.

🟢 Análise

Há uma indignação que move o mundo para a justiça, e há outra que o enreda em labirintos de ressentimento. O discurso proferido pelo presidente Lula na reunião CELAC-África, embora recheado de um justo clamor por um mundo mais equitativo e livre das intervenções indevidas, corre o risco de confundir a legítima denúncia com um diagnóstico simplista, onde todas as mazelas globais são invariavelmente atribuídas a um único culpado externo. Não é de hoje que a Doutrina Social da Igreja adverte sobre o perigo de uma “estatolatria” ou de uma “internacionalolatria” que, ao buscar soluções monolíticas ou ao externalizar por completo a culpa, negligencia as responsabilidades inerentes a cada nação e a cada comunidade. O que é verdadeiramente inquietante não é a busca por uma nova ordem, mas a ilusão de que a mera realocação do poder em si garantirá a justiça que se almeja.

É inegável que o histórico de intervenções estrangeiras, a exploração dos recursos naturais e a dívida histórica do colonialismo e da escravidão, como bem apontado pelo presidente, são chagas abertas que desfiguram a face da justiça global. A urgência de reformar instituições como o Conselho de Segurança da ONU e a OMC é um imperativo de justiça, pois a representatividade inadequada perpetua uma ordem gestada em outro tempo, sob outras lógicas de poder. O contraste chocante entre os trilhões gastos em armamentos e a persistência da fome em milhões de lares é um escândalo moral que grita aos céus e exige uma solidariedade radical. Reconhecer essas preocupações é um dever de veracidade e um passo essencial para a construção de qualquer paz duradoura.

Contudo, a verdade exige mais do que a denúncia das culpas alheias. Se a ordem internacional é injusta, é preciso perguntar também pelas fissuras internas que fragilizam os próprios países do Sul Global. Não basta culpar a ordem externa pela fome quando a má governança, a corrupção endêmica e a instabilidade política corroem as estruturas nacionais de dentro para fora, dificultando o desenvolvimento integral. São Tomás de Aquino nos ensina que o bem da sociedade é um bem comum, e a justiça deve operar em todas as esferas, desde as relações internacionais até as práticas administrativas mais básicas de um município. A mera “argumentação” e a “construção de narrativas”, por mais poderosas que sejam, não substituem a fortaleza necessária para confrontar os próprios vícios ou para garantir a segurança de um povo diante de ameaças reais.

A menção aos minerais críticos, por exemplo, como nova fonte de poder para o Sul, embora carregue uma promessa de autonomia, pode replicar um modelo extrativista se não for acompanhada de um plano robusto de agregação de valor e de uma governança interna que assegure a propriedade com função social. A mera exportação de commodities, por si só, não garante o desenvolvimento pleno das nações. Mais ainda, quando o presidente proclama ter “acabado com a fome” em 2014 ou “tirado 33 milhões de pessoas da fome em dois anos e meio” em seu mandato atual, tais afirmações, por mais bem-intencionadas, requerem uma honestidade e uma transparência de dados que as resguarde da retórica política. A fome é um flagelo complexo, e sua erradicação exige políticas estruturais e continuadas, não apenas picos de sucesso eleitoralmente convenientes.

O paradoxo é que, ao criticar a concentração de poder no Conselho de Segurança da ONU, a proposta de meramente expandi-lo ou criar novos blocos de influência (como CELAC-África) não garante que esses novos centros não reproduzirão a mesma lógica de interesse nacional e de uso da força que hoje se critica. A experiência histórica, por vezes, mostra que a troca de senhores não significa a abolição da servidão. A verdadeira subsidiariedade pressupõe o fortalecimento dos corpos intermediários e das comunidades locais, e não apenas a ascensão de novas hegemonias. A magnanimidade na política externa não se mede pela veemência da crítica, mas pela capacidade de construir pontes reais e de fomentar um desenvolvimento que alcance a dignidade da pessoa humana em todas as suas dimensões.

O mundo pobre se desenvolve, sim, com paz. Mas essa paz não se conquista com meras narrativas; ela se edifica na rocha da verdade e da justiça, por atos concretos que reformam o coração humano antes de reestruturar o mapa-múndi.

Fonte original: VEJA

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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