O palco de uma conferência ambiental internacional, com suas luzes e microfones, é por natureza um teatro de intenções. Mas a construção de uma realidade sobre o meio ambiente, por mais urgente que seja, exige mais do que a encenação de um milagre. O discurso do Presidente Lula na COP15 em Campo Grande, ao delinear um quadro de redenção ambiental rápida e unilateral, convida à esperança, sim, mas também a um exame mais honesto das fundações sobre as quais tal narrativa se ergue.
O presidente apresentou, com ares de proclamação, uma reviravolta ambiental notável. De uma imagem internacional questionada e políticas ambientais “desmontadas” (referência clara ao governo anterior), o Brasil teria, desde 2023, trilhado um “novo caminho”. Os números apresentados – queda pela metade no desmatamento amazônico, mais de 30% no Cerrado, e mais de 90% nas queimadas do Pantanal – soam como um hino à eficácia imediata. A reconstrução institucional, a recolocação do Brasil nos fóruns multilaterais e o lançamento de novos fundos e coalizões completam a imagem de um país que, em pouco tempo, virou a página da destruição.
É justo reconhecer qualquer avanço concreto na proteção da biodiversidade. No entanto, a pressa em atribuir um feito tão complexo e multicausal exclusivamente a uma gestão política, enquanto se demoniza por completo a anterior, carece de honestidade intelectual e de uma dose saudável de humildade. A dinâmica ambiental é um tecido complexo, influenciado por fatores climáticos, oscilações econômicas e até mesmo pela inércia de políticas e fiscalizações iniciadas em tempos diversos. Reduções expressivas, embora bem-vindas, não se firmam apenas por decreto ou retórica; elas são fruto de um trabalho persistente e de uma convergência de esforços que não se encaixam em dicotomias políticas simplistas.
O risco dessa narrativa é duplo. Primeiro, ela pode gerar um otimismo prematuro, subestimando os desafios estruturais e a persistência de pressões sobre nossos biomas. A verdadeira capacidade das instituições ambientais, por exemplo, não se restaura por um passe de mágica; exige investimento contínuo em pessoal, infraestrutura e autonomia técnica. Segundo, ao priorizar a “recolocação do Brasil no mapa dos esforços multilaterais” e a imagem externa, pode-se ofuscar a necessidade de soluções internas robustas e aprofundadas, que atendam às complexidades locais e aos conflitos inerentes entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. São Tomás de Aquino nos lembra que a verdade é a adequação da inteligência à coisa, e não o contrário. E a coisa, neste caso, é a natureza em sua inteireza e complexidade, não a imagem que dela se projeta.
O Polemista Católico, em defesa de uma comunicação responsável, deve questionar se essa abordagem não transforma o “povo” em “massa”, conforme a advertência de Pio XII, que, em vez de discernir a verdade em sua totalidade, é impelido por um relato simplificado. É a tentação de acreditar que basta mudar o cartaz na porta para que o edifício esteja reformado. A sanidade, como diria Chesterton, consiste em ver as coisas como elas são, mesmo quando a realidade é mais matizada e menos heroica do que gostaríamos. A governança ambiental, em sua essência, não é uma corrida de cem metros, mas uma maratona que exige consistência e o reconhecimento de que os méritos e os reveses se distribuem ao longo de uma trajetória histórica, e não apenas de um mandato.
Para que a Declaração do Pantanal e os princípios de um desenvolvimento justo e sustentável se traduzam em algo mais que papel, é preciso ir além da autopromoção. A mobilização de recursos financeiros e a implementação de mecanismos multilaterais inovadores, como os que o Brasil se propõe a liderar, serão avaliados por sua efetividade concreta e pela justiça de suas aplicações, não pela mera força do anúncio. Exige-se transparência na aplicação dos fundos, rigor na fiscalização e a coragem de lidar com as tensões entre o desenvolvimento e a preservação de forma integrada, envolvendo corpos intermediários e comunidades locais, sem ceder à tentação da estatolatria ou do centralismo discursivo.
A verdadeira vocação ambiental de um país se revela não na efemeridade dos aplausos internacionais, mas na perenidade das ações que assentam no solo. A natureza não se engana com a retórica; ela responde aos feitos. E um país que se pretende construtor de um futuro sustentável deve, antes de tudo, cultivar a honestidade da pedra fundamental.
Fonte original: Portal GMC Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.