A praça virtual, que nos foi vendida como o grande ágora do século XXI, revela-se, sob a lupa da evidência, não um jardim de infância digital, mas um terreno árido onde se colhe o que se semeou: engajamento a qualquer custo. Onde antes se esperava um florescer de ideias, brotam, como ervas daninhas, a violência, o discurso de ódio e a radicalização. Denúncias graves contra gigantes como TikTok e Meta expõem uma verdade incômoda: as máquinas de engajamento, longe de serem neutras, foram ajustadas para priorizar o lucro sobre a segurança dos usuários, ignorando os danos que suas invisíveis engrenagens causavam. Como um ex-engenheiro do TikTok confessou, para a técnica o conteúdo é “apenas um ID, um número diferente”, alheio à alma que se corrompe do outro lado da tela.
Não se trata de mera falha operacional, mas de uma profunda inversão da ordem dos bens. Pesquisas internas da própria Meta, tornadas públicas pelos denunciantes, alertavam que o algoritmo oferecia um “caminho que maximiza os lucros às custas do bem-estar de sua audiência”, e que os “incentivos financeiros não parecem estar alinhados com nossa missão”. Este é o cerne da questão: a deliberada opção por um ganho de “2% ou 3% de receita”, mesmo que isso significasse permitir a amplificação de conteúdo “limítrofe” — misoginia, teorias conspiratórias, incitação à violência — ou lançar plataformas, como o Instagram Reels, com insuficientes proteções de segurança, sabendo do aumento exponencial de bullying e assédio. A ética de mercado que justifica o sacrifício da pessoa humana em nome do crescimento acionário é uma justiça mutilada, que exige mais do que meras “políticas rigorosas” ou “investimentos significativos” pro forma.
O argumento de que a escala massiva das plataformas e a subjetividade do “conteúdo limítrofe” tornam a moderação perfeita um ideal inatingível, embora carregue um grão de verdade, não resiste à evidência de intenção. Não é a complexidade que absolve, mas a escolha consciente. Quando um vice-presidente sênior da Meta decide “permitir mais conteúdo nocivo” por pressão do preço das ações, ou quando o TikTok prioriza “manter relacionamento forte” com políticos em detrimento de denúncias de chantagem sexual e cyberbullying de adolescentes, a alegação de “propriedade emergente” de sistemas complexos cai por terra. Não se trata de uma força da natureza incontrolável, mas da manifestação de uma vontade corporativa que, como bem assinalou Chesterton, pode enlouquecer o mundo com a lógica impecável de uma causa distorcida. A sanidade exige que a capacidade de discernir o bem do mal não seja terceirizada para uma inteligência artificial que não possui nem consciência nem alma. A responsabilidade não se delega ao ID numérico.
O cenário descrito por estes denunciantes desenha um desequilíbrio de poder brutal. De um lado, empresas que realizam “experimentos em larga escala com centenas de milhões de pessoas” sem que elas saibam; de outro, adolescentes como Calum, de 19 anos, que afirma ter sido “radicalizado pelo algoritmo” desde os 14. O que é alarmante é a dissonância entre as alegações públicas das plataformas de priorizar a segurança e a realidade dos bastidores, onde cortes em equipes de moderação, a substituição por IA e a negação de contratações para especialistas em proteção infantil ocorriam enquanto centenas de funcionários eram direcionados para o desenvolvimento de novos produtos. A veracidade exige que se diga: a preocupação com o “bem-estar da audiência” se torna retórica vazia quando os incentivos financeiros apontam para outra direção, e a humildade é esquecida quando a soberba tecnocrática se recusa a admitir a própria falibilidade moral.
A resposta não pode ser simplista, nem o Estado pode ser o único baluarte contra o gigantismo digital. Mas é preciso reconhecer que, para além da autoria individual de conteúdo, existe uma responsabilidade estrutural. É urgente que a arquitetura dessas plataformas seja reavaliada sob um prisma de justiça social e ética, que priorize a pessoa humana e sua dignidade. Isso implica fomentar a transparência algorítmica, fortalecer a regulação prudencial que não asfixie a inovação, mas que garanta o dever de cuidado, e, acima de tudo, capacitar a sociedade civil. Conselhos que integrem escola, família e comunidade, junto a um currículo que promova a resiliência digital e o pensamento crítico, são antídotos necessários para forjar uma cultura capaz de navegar nestes mares turbulentos. A “cidade como sala de aula cívica” deve incluir também o espaço digital, reordenando-o para o verdadeiro florescimento humano.
Não se trata de demonizar o avanço tecnológico, mas de purificá-lo de sua própria cegueira. A edificação da verdadeira sociedade digital não se fará sobre as ruínas da dignidade humana, mas sobre os alicerces inegociáveis da justiça e da reta responsabilidade, sob o olhar atento de uma humanidade que não troca sua alma por um punhado de cliques.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.