A promessa da logística, hoje, é tecida com algoritmos e sensores que se espalham como uma fina teia neural por armazéns e estradas. Os números são sedutores: entregas mais rápidas, menos perdas, frotas que se movem com a precisão de um relógio suíço, otimizando cada quilômetro e cada gota de combustível. É um convite irrecusável à eficiência, uma verdadeira sinfonia orquestrada pela inteligência artificial e pela Internet das Coisas.
No Brasil, essa revolução não é ficção, mas realidade em plena expansão. Empresas de peso, como MBRF, White Martins e VLI, ostentam reduções notáveis em tempos de entrega, devoluções e até emissões de CO2, um ponto inegavelmente louvável. Cerca de 43% das empresas nacionais já integraram IA a seus sistemas de transporte, superando a média global de 37%. A automação é vista como a chave para a competitividade, a ponto de se afirmar, com orgulho, que “a IA saiu do backoffice para a operação”, transformando o fluxo de mercadorias no país.
Todavia, sob a superfície polida dessa eficiência vertiginosa, correm correntes de preocupação que a doutrina social da Igreja não pode ignorar. O custo da modernização, muitas vezes, não é medido apenas em cifras de investimento ou em percentuais de lucro, mas em dignidade humana e equidade social. A quem serve, de fato, essa otimização quando o pequeno empresário, que durante anos construiu sua frota e sua rede de contatos, se vê diante de uma barreira tecnológica intransponível, condenado à obsolescência pela falta de capital para competir?
A promessa de que “quase 70% das empresas brasileiras” estarão preparadas para agentes autônomos até 2030 acende um alerta sobre o destino dos motoristas, dos operadores de armazém e de tantos outros cuja subsistência pode ser ceifada sem planos concretos e justos de requalificação. O que se desenha não é apenas uma nova forma de operar, mas uma reconfiguração radical da própria estrutura do trabalho, com o risco de criar uma subclasse de desempregados ou subempregados. A concentração de capital e conhecimento em poucos gigantes, ademais, não só ergue um muro para as PMEs, como também pode sufocar a inovação e o tecido econômico capilar, gerando um desequilíbrio perigoso no mercado.
A reta justiça exige que a prosperidade gerada pela tecnologia não se torne um privilégio de poucos, mas um bem compartilhado. O solidarismo católico, ao contrário da visão que privilegia a máquina e o grande capital, preconiza o fortalecimento dos corpos intermediários, das pequenas e médias empresas que animam as economias locais e oferecem emprego digno. É preciso enxergar a logística não como uma malha fria de códigos e pacotes, mas como uma teia viva de relações humanas, onde a caridade se manifesta no cuidado com o mais fraco e na busca de uma propriedade difusa, que empodere, e não que concentre o poder em poucas mãos. O paradoxo é que, na corrida para otimizar o transporte de coisas, corremos o risco de desviar o caminho para a casa do homem.
Os ganhos em sustentabilidade ambiental, como a redução de emissões de CO2 na atmosfera, são louváveis e urgentes. Mas não podem servir de véu para uma injustiça social maior. A verdadeira sustentabilidade inclui também a sustentabilidade da vida humana e do trabalho. Não basta apenas reduzir a pegada de carbono se, em contrapartida, aumentarmos a pegada da miséria ou da exclusão social.
É imperativo que se desenvolvam políticas que garantam a transparência curricular e conselhos escola-família-comunidade adaptados ao mercado de trabalho digital, mas também que se estimule o cooperativismo e a formação dual para que os trabalhadores possam ascender, e não serem descartados. A criação de métricas de bem comum para avaliar o impacto dessas tecnologias, além do lucro bruto, e a exigência de ética nos algoritmos não são entraves ao progresso, mas balizas para um avanço humano e justo, que ordene a técnica ao homem, e não o homem à técnica.
A sabedoria não reside em parar o curso do rio tecnológico, mas em construir pontes e margens seguras para que sua corrente sirva à vida de todos, e não apenas à navegação dos mais poderosos.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.